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12 de junho de 2010

O purista

(Texto válido para a promoção do evento "Punk is not profits". Comente sobre, e concorra a ingressos para o evento.)
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Minha família é de origem mineira, embora eu seja paulistano. E como mineiros legítimos, há um verdadeiro culto idólatra ao café, hábito que herdei com fervor. O pão de queijo não veio neste pacote de tradições, curiosamente.
Aprendi a apreciar o café nas rodas de causos dos adultos, das quais era difícil participar, pois sempre era expulso dali. “Assunto de gente grande, moleque!”, era sempre assim que terminava um palpite meu. Meus avós maternos são mestres na arte de trazer o passado de volta, com mais sabor na narrativa.
O café não pode jamais ser este “de pacote”. De preferência deve ser comprado em grão cru. Assim, você percebe se há misturas indesejáveis, como soja ou milho velho. Sim, acontece nas melhores marcas e é inclusive permitido pelo Ministério da Agricultura. Estes eram os primeiros mandamentos do velho Dário, doutor honoris causa no assunto, meu falecido avô.
Você não encontra grãos tipo exportação nas feiras livres. Mas isso realmente não é determinante se você não é dono de uma cafeteria sofisticada. Os grãos vendidos nos mercados populares são, em sua maioria, sobras dos cafezais.
O passo seguinte é torrá-lo no ponto adequado. Ter um fogão à lenha ajuda. Nas casas de produtos agropecuários, você acha com facilidade o torrador de café, que se assemelha muito com uma pipoqueira antiga. O chamado “ponto forte” é alcançado somente por mestres. É a fronteira entre queimar o grão e apenas torrá-lo. A ciência do sabor do café passa por aqui. Teremos café com gosto de carvão se houver imperícia. Nunca vi o velho Dário errar um ponto sequer.
O passo seguinte é moer o grão torrado. No moedor manual, é claro. Também encontrado nas melhores casas de produtos do campo. Saber regulá-lo também é mister. Um pó fino em demasia prejudica a infusão por ser mais difícil de “passar” no coador, além de ser mais difícil de se obter no moedor. Um pó excessivamente grosso não retém a água o suficiente.
A infusão não pode nem sequer ser imaginada se não em um bom coador de pano. É ritualístico. Colocar o pó para esquentar junto com a água é simplesmente sacrilégio. Ele deve ser colocado à parte dentro do coador para esperar a água. E sim, está certo ali atrás: esquentar. Água fervente, borbulhando, queima o pó. Ela deve ser despejada nos primeiros sinais de fervura. Dica: quando as bolhinhas surgirem na parede da caçarola, segundos antes da fervura total. Você não tem uma caçarola? Oras, em que mundo você vive, afinal?
O bule de metal recebe o café direto do coador. Nada de transferir de recipiente, pois não queremos beber suco de café. Ah, sim... se você tem uma garrafa própria para o café e fere a mística de consumi-lo direto do bule, evite passá-lo por um bule, e coe-o direto na garrafa.
O açúcar é opcional. No rito Lopes, ele quase não está presente. De tão pouco, ele vai direto diluído na água. Mas isso é aí, com o seu paladar. Tente experimentar o café e seu amargor sem a presença ostensiva do açúcar. Converse com o gosto do grão. Sinta o imenso prazer da absorção de cafeína sem intermediários. Essa é outra dica.
Café frio é conteúdo de cano da pia. Perde todas as propriedades gustativas depois que esfria. Oferecer-me café esquentado é uma ótima maneira de produzir uma péssima imagem de quem tem essa coragem. Que tipo de sujeito bebe café esquentado? E pior, que tipo de ser humano oferece isso aos convivas?
A degustação deve ser feita prazerosamente. A arte de conversar com o paladar e apreender o sabor do café vai contra todo e qualquer ditame do fast-food. É um verso de amor e militância à slow food. Ouvir os causos dos avós, no quintal de terra, debaixo da mangueira, bebendo café e aguardando as roscas da vovó ficarem prontas. Eu chamo isso de felicidade. E eu tive isso.
Sigo cada passo dos ensinamentos do velho Dário. Ele gostava de degustar o café no nascer do sol, todas as manhãs. Ouvindo uma rádio AM, onde cantavam Tião Carreiro e Pardinho, Pedro Bento e Zé da Estrada, Tonico e Tinoco. Eu sentava ali na cozinha com ele, esperando o chamado para o resto da família, avisando que o café estava pronto: “Ó o Móca!”. Aquilo me dava uma alegria imensa. Hoje, me dá uma saudade lancinante.
O gosto do café combina com tudo, é verdade. Embala minhas incursões pretensamente literárias, minhas horas de folga na internet, as audições de certos tipos de música. Na minha cabeça, combina demais com jazz, britrock e moda de viola raiz. Tem gente que jura que combina com rock pesado. Eu não consigo ouvir Disrupt ou Iron Maiden bebendo café. Até consigo, é verdade, mas não faz o menor sentido.
É certo que continuarei sendo o bastião da arte do bom café. Os milenares códices a mim foram confiados, não posso falhar. Avante, nós!, os viciados em cafeína!

15 de março de 2010

Desligando-se.

(Texto para a promoção cultural do evento Capim Caos. Comente sobre ele, os dois melhores comentários ganham ingresso para a gig!)
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Há trinta e sete minutos atrás começou mais uma segunda-feira. O Ignite canta baixinho nas minhas caixas pífias, “Embrance”. Faltam 5 horas pra recomeçar todo um ciclo, onde eu me religo com um mundo que está me desumanizando. Café, trânsito, trabalho, trânsito, almoço de plástico, trabalho, trânsito, casa. Qualquer fuga a isso, e sou punido pelo tempo policiado, pois atrasos em prazos aparecem. Rotina. Desencanto.
Eu sou idealista quanto à minha profissão. Não caí de pára-quedas nisso tudo. A sala de aula me realizava. Hoje, sou empregado de todo um sistema de fazer grana, ligado à indústria do vestibular. Lamentável, triste.
Seguir em frente porque há a coersão do mercado e da própria sobrevivência. Me vejo castrado e impotente frente a isso. E estou profundamente cansado, física e mentalmente. Sou mais um do “clube”, que infelizmente toma consciência do seu papel degradante nessa porra toda. Gostaria, agora, de não ter senso crítico e me esbaldar tranqüilo em todo o crédito que me é oferecido, para que eu me enterre pra sempre nesse esquema. Eu compraria a felicidade, que seria entregue em casa, financiada em até 60 meses sem entrada. Uma dúzia de malditos que li uns anos atrás nos bancos acadêmicos não me deixam ser feliz e mergulhar nessa.
Eu costumava me livrar de tudo isso, pelo menos momentaneamente, me envolvendo minimamente com hardcore. Eu sonhava com o mundo melhor ao alcance das minhas mãos. Ouvindo discos, traduzindo letras, tocando em bandas, indo aos eventos, lendo e escrevendo fanzines. Enfim, o de sempre pra todo mundo que gosta de hardcore e punk.
Eu costumava sonhar hardcore, hoje não mais. Eu ainda vejo meus amigos por aí e me divirto. E isso me faz bem. Eu ainda ouço muitos discos, bons como esse do Ignite que me faz embargar a voz, mas minha fé está se esgotando. Eu ainda vejo muitos fanzines na internet e fora dela (em Goiânia, quase nada), mas me cansei dos mesmos erros de português, e da mesma falta de objetividade de sempre na esmagadora maioria deles.
Eu tinha uma ilusão, que só se desfez tardiamente. Eu imaginava que era possível, neste mundo em que nós vivemos, abandonar uma perspectiva individualista e construir uma via alternativa coletiva pro hardcore goianiense. Pessoas somando com outras, e deixando o ego guardado em casa.
Eu me iludia a ponto de vislumbrar mesmo um esquema que se auto-sustentasse, pra produzir arte contracultural, à margem da pespectiva conservadora e embalsamada do rock. Eu jurava que podia fazer parte de um momento único (porque eu estava lá) em que o hardcore seria verdadeiramente contra-hegemônico, e que idéias circulariam em diversas formas de mídias. Seria o meu Rosebud, guardada a empáfia da comparação.
E toda vez que me reaproximo da cena hardcore, vejo que estou mais enganado. Salvo as exceções que sempre existem, a mesma coisa de outros dias: só música, só entretenimento, só diversão. Não é que eu não goste de me divertir. Mas eu gostaria de acrescentar algo à minha formação como ser humano também. Curtir som é massa, saber por que ele foi escrito, é melhor ainda.
Ideologicamente, a gente vai se desligando. Mantém o que herdou da coisa toda. Mas, como organicamente o hardcore chegou ao seu limite na vida de um cara com 30 anos, o que resta é pensar outras formas de tentar romper a gaiola na qual estou preso. Ao assistir a uma manifestação artística de hardcore hoje, não sinto mais meu mundo mudando. Sinto meu mundo se amenizando, me dando um tempo.
Não consigo relativizar tanto o conceito de hardcore a ponto de dizer que vale tudo dentro da música. O punk hardcore nasceu com identidade. Parte dele foi realmente cooptada, pois não há donos da arte, ela faz parte do espírito humano, já dizia o filósofo. Mas a essência ainda poderia ser trabalhada: resistência. Ao reproduzirmos o discurso da arte pela arte, este cara aqui desanima.
Mesmice no trabalho, punhetagem de conteúdo pra passar no vestibular. Mesmice no hardcore, punhetagem na produção artística e discurso vazio, como cabeça de adolescente pós-moderno.
Quem nunca ouviu/entendeu o Ignite, taí uma sugestão.