27 de julho de 2011

Vale a pena ler


Não é genial, mas é criativo. Aliás, coisas geniais têm me parecido tão entediantes ultimamente, que tenho preferido futilidades sinceras, como esta dica que deixo.

Achei-o clicando em "próximo blog", ali em cima. Belas férias as minhas, não?

11 de julho de 2011

FÉRIAS

O blog estará parado por estes dias. Não sei quando novos textos sairão. Boas férias, galera.

29 de junho de 2011

A Xepa da memória

Ah, a memória e seu mecanismo de lembranças de conforto... Como é interessante reviver certas sensações guardadas por anos a fio. Esse é um dos assuntos que me fascina e sem dúvida gostaria de estudá-lo a fundo. Há um romance de Umberto Eco chamado A Misteriosa Chama da Rainha Loana que gira em torno deste tema tão instigante. Recomendo-o: um livreiro italiano perde a memória e volta ao lugar onde cresceu, uma pequena propriedade rural, como parte do tratamento para a sua amnésia completa. Lá, redescobre quem era através do prazer à mesa oferecido pela vida no campo na Itália e por estimular a mente com quinquilharias que colecionava quando menino. É de uma sensibilidade ímpar.

Esse friozinho que aportou em terras vermelhas de cerrado nos últimos dias produz em mim este efeito “memória de conforto”, lembrando-me dos invernos paulistanos da minha infância. Época que sugere comidas carinhosas, como uma boa sopa. Lembro-me de uma em especial: a xepa da geladeira. Na casa do operário metalúrgico meu pai, a fartura era alternada com épocas de aperto. Quem tem mais de 30 aí do outro lado da tela deve se lembrar dos congelamentos de preços e salários da maldita era Sarney. Faltava tudo no mercado. Isso também marcou minha infância. A senhora do torneiro-caldeireiro tinha que improvisar – alimentar a prole com o disponível no momento.

Um naco de carne importada da Europa do Leste, não importava o corte, ia pro caldo. Sim, o maior produtor de carne do planeta, o Brasil, já precisou importar carne, quando os produtores de gado de corte se negaram a entrar no tabelamento de preços imposto pelo governo. Faltava carne no mercado por dias a fio. E aquilo mais que servisse para entrar para a panela e derreter até virar sopa, ia junto. Uma belíssima sopa colorida, enfastiante, fumegante, no inverno seco e poluído de São Paulo. Restos da geladeira como jantar, almoço e jantar de novo, até o operário se virar. Essa era a rotina nos idos de 86/87.

A tradição das padarias paulistanas corre mundo. A padoca lá perto de casa era espetacular. Rio das Pedras padaria, confeitaria e lanchonete. O então jovem chefe de família, hoje senhor carrancudo meu velho, buscava lá uns pães para a sopa. A prole desgrudava da TV, onde acompanhava as peripécias de Daniel Azulay ou o intrépido Pirata do Espaço. Era a hora mais legal do dia, pois era a única que reunia todos ao redor da mesa. Jantávamos muito cedo, dormíamos muito cedo, pois a fábrica esperava seu torneiro às 8 da manhã. Morávamos em Itaquera, a Valmet Tratores ficava do outro lado de São Paulo, 3 horas de condução.

O sabor daquela sopa me vem à boca junto das lembranças na cabeça. Tudo o que foi possível para que pudéssemos viver decentemente foi feito por aquele casal proletário da periferia paulistana. Tenho uma saudade gostosa do perrengue. Não para sofrê-lo novamente, mas por ter sido responsável por quem sou hoje.

Criar as próprias memórias de casal proletário, pós-emersão da classe C. Essa é a meta de senhor e senhora Alemão nos dias de hoje. Linká-las ao passado não tão médio de nossos pais, para ressignificá-las. Eis aí uma coisa interessante: observar o processo de crescimento nas gerações familiares. Na minha família funciona, não sei na sua.

Para termos nossas próprias memórias familiares, quase explodimos uma panela de pressão. Recomendo que compre uma boa, e não essa porcaria que eu tenho aqui. Cozinhar ervilhas em grãos por uma hora e meia foi um ato de fé. Uma xícara servida. Diria eu uma e meia. Água pela metade e paciência quando a porra da válvula entupir. Vai dar tempo de picar a xepa da geladeira. Nas profundezas gélidas da minha Electrolux havia cará, inhame, abóbora menina e japonesa, batata, repolho roxo, cenoura, beterraba e pimentão verde. Foram juntos salsão, uma folhinha de coentro, cebolinha e uma cebola grande picada na vertical.

No meio tempo da ervilha, após ter cuidado da xepa, pique em cubinhos as sobras das carnes de receitas anteriores. Eu tinha peixinho e alcatra. Refogue-as bem temperadas com alho e cebola. Depois de bem fritas, jogue a xepa lá dentro. É obvio que a panela deve ser do tamanho da bunda da mulher melancia: GG Gigante. Refogue mais, misture a coisa toda, deixe o caldo da carne entremear a verdurada. Suas ervilhas já estão derretidas. Tire-as da panela de pressão, jogue no refogado, prove o sal. Ajeite tudo e deixe andar. Eu não posso comer pimenta devido ao meu tratamento de úlcera, mas deu uma vontade louca de sapecar alguma das várias que tenho aqui.

Vez ou outra vá mexendo, terapeuticamente. Se ficar grosso antes do total cozimento da rapaziada toda, acrescente moderadamente água e prove o tempero. Vá nessa procissão, até o negócio endireitar e ficar fantástico, te lembrando que um dia aquilo foi a única refeição possível dentro da sua casa. Acompanha um belo pão a seu gosto, logicamente salgado.

E sobre música, no próximo Rango Rock.

27 de junho de 2011

O último Birita: melhor foi ir de estômago cheio.

Foi um dos finais de semana mais agitados dos últimos meses para nós, a equipe do blog: dois casamentos de amigos, sendo padrinhos em um, com as respectivas festas – ambas muito boas. Festas juninas por aí e de um dos colégios onde trabalho. Duas apresentações com minhas bandas: Palmatória, no sábado e Tirei Zero no domingo, na programação do Birita Rock Atitude, quintal do Fabiano na Nova Suíça. Ufa, sobrevivemos.

Não fomos a nenhuma casa indicada em Goiânia pelo festival Brasil Sabor, comentado por aqui uns textos atrás. Não pelos valores, havia várias opções bem acessíveis. Mais pelo cardápio: incrivelmente, mais de 30 opções de pratos, e nenhum nos seduziu. Alguns triviais demais para tirar algum incauto de casa. Onde já se viu oferecer estrogonofe de carne fast-food em festival gastronômico? A agenda apertada e a falta de criatividade dos chefs da capital de Goiás fizeram com que este blog aguarde a 7ª edição do evento.

Comer bem sem precisar enfrentar trânsito e convenções sociais é sinônimo de cozinhar em casa. Qualquer pessoa minimamente interessada em gastronomia não teria dificuldade alguma em executar as receitas oferecidas pelas casas goianienses participantes do festival Brasil Sabor. No sítio da internet deles estavam todas elas disponíveis. Então, nos perguntamos: qual o sentido de pagar mais, para comer algo que era previsível? Domingo na cozinha dos apertados 58m².

A qualidade do que será seu almoço começa pela escolha dos ingredientes. Treine como escolher uma boa peça de carne. Pesquise na internet os cortes adequados, leia bastante antes de comprar. Dá um resultado fantástico.

O miolo da alcatra é muito saboroso quando fica no ponto certo: não pode assar demais, pois tende a secar rápido. Compre uma peça inteira e limpa. Não é falta de educação pedir ao açougueiro que trabalhe a peça para você. Mais ou menos um quilo é o ideal para a receita que eu tenho aqui. A minha tinha 1,2 kg. Serve fácil quatro pedreiros.

Com verdadeiro espírito de monge, fure a peça e massageie alho, uma pitada de pimenta calabresa seca, quatro folhas médias de louro, alecrim fresco (um ramo servido), duas cebolas médias, pimenta bode vermelha e verde, molho shoyu bom e um limão. Isso tudo descansa com duas camadas de sal grosso: uma forrando o fundo da marinada, a outra por cima da carne. Vinte minutinhos. Sal comedido, pois eu exagerei um pouquinho e senti depois. Forno pré-aquecido médio, uns 225°C. Enquanto marina tudo, cozinhe no ponto “al dente” algumas batatinhas tipo conserva em sal e azeite, com casca e tudo, obviamente higienizadas. Organize tudo na sua assadeira de vidro – carne, molho, temperos, batatas cozidas. Faça uma cama de cebolas cortadas na vertical para colocar o miolo de alcatra para assar. Tudo posto, mande um generoso fio de azeite sobre tudo. Cubra com alumínio e vá beber ouvindo música.

Um arroz branco com alho e cebola, simples e por isso fantástico, solto grão por grão, é um parceiro e tanto. Em um dia mais iluminado passarei aqui uma dica infalível para este ponto de arroz. Stella Artois trincando dá as mão numa boa com a carne também. No Bretas Jaraguá encontramos a cerveja por R$ 1,89. Algo meio tabelado, se você acompanha esta marca.

Trinta minutos no seu forno, vire a carne e tire o papel alumínio. Mais ou menos uns vinte minutos depois, faça uma prova. A minha estava no ponto perfeito: macia e suculenta por dentro, casquinha tostada por fora. Levemente salgada por carregar a mão na hora de mariná-la. Alecrim e louro ficaram bem juntos, ambos perceptíveis no paladar. Picante também, pois a pimenta calabresa é forte, sugiro que entre somente como um “plus”, para não arruinar seu prato. A pimenta bode entra como toque estético, para colorir a carne. É inofensiva se usada comedidamente. Autocrítica: nota 7,5. Médio-bom. Olha ela sorrindo pra você na cabeça desta postagem de hoje...Desculpe minha pouca habilidade com uma câmera fotográfica. Idem com a apresentação do prato.

No Birita Rock Atitude, a mesma casa, o mesmo banco, as mesmas ervas relaxantes e o mesmo jardim. O mesmo pesticida rotulado Nova Schin servido como se fosse cerveja. O mesmo pingorante vai-com-jesus-e-o-carcará a incríveis R$ 0,10. Salgados tipo cantina de colégio. Pedrinho, o Orc, não passou no teste de cardápio do evento. Bandas, muitas bandas. Dois dias de festa. Todas com o selo de qualidade Birita. A mesmice divertida de sempre. Amigos por ali, histórias engraçadas, chapação. Com certeza, um dos eventos mais bacanas da cidade. A fórmula gasta só demonstra que funcionou bem, por uma década inteira. A vizinhança da Nova Suíça nunca mais será a mesma sem o Birita Rock Atitude. E como foi bom descobrir que na distribuidora de bebidas bem próxima havia Heineken gelada. Melhor ainda foi fechar a noite entupindo-me de caldo no Setor Aeroporto em excelente companhia. Não julgo os caldos, pois meu paladar saiu correndo na terceira ou quarta Heineken horas antes. Minha língua já estava grossa: a coitada da Itaipava Premium que tomamos no bar dos caldos não me disse nada. Os amigos, com todo o pacote de atrativos e repulsivos que trazem juntos, ainda são a melhor coisa que se tem na vida. Tá, soou piegas mesmo. Afinal, já está patente minha falta de inspiração para esta postagem. Quando será que estarei livre completamente dos últimos sinais desta maldita depressão?

Sobre a música na noite do quintal de Fabiano? O tempo parou, há anos, em Goiânia. Não sei lhe dizer se isso é bom ou ruim. Ontem colou, não sei até quando comigo.

24 de junho de 2011

Lendo o rock nas origens

Você já ouviu, tenho certeza, a expressão: “A história de algumas bandas de rock deveria ser matéria de escola”. Particularmente, realizo esta máxima sempre que tenho a oportunidade em minhas aulas. A história da cultura na segunda metade do século XX fica muito mais interessante para alunos entre 15 e 18 anos quando contada pelo viés dos movimentos contraculturais de juventude. Geralmente, são as aulas mais reverberadas pela molecada.

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Há a responsabilidade de não doutrinar, óbvio. Não é esse o fim último da educação omnizante da qual sou adepto (ver o magistral artigo publicado pelo professor e camarada Nildo Viana, na Revista Estudos, da PUC-GO, v.31, nº 3, março de 2004, intitulado “Marx e a educação”). Minha finalidade é tornar o objeto de estudo mais próximo da bagagem acumulada pelo alunato. Nesse sentido, há um mar de publicações que são interessantes e recomendáveis, do ponto de vista historiográfico e didático. O mercado editorial brasileiro tem feito um esforço sobre-humano para colocar este povo bronzeado e gingante, público cativo das tolices do oráculo Bonner, em frente aos livros. Há inclusive fenômenos de vendas nacionais no campo da historiografia. Autores como Eduardo Bueno vendem bem entre o público jovem.
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Livros especializados em história do rock há aos montes, e este que vou comentar aqui é apenas um dos milhares escritos sobre os Beatles. Dentre os quatro que li, é o melhor e mais recomendável, e por isso o tenho. O filtro que usei para chegar a ele e indicá-lo foi simples: linguagem acessível para não-iniciados, boas referências historiográficas, autor sério e de qualidade, e por fim, texto gostoso de ler, que prende a atenção do moleque. A obra “A Revolução dos Beatles”, de Roberto Muggiati, chegou às minhas retinas em 1999, quando cursava História na atual PUC de Goiás. Minha edição é a primeira, de 1997. Não sei se outras edições modificaram algo no texto, como atualizações de dados ou o que o valha. A editora é temerosa, Ediouro – famosa por lançar muita coisa dispensável no fraco mercado editorial brazuca. Contrariando essa fama, este livro é muito bom.
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Em aproximadamente 160 páginas pouco ilustradas, o jornalista de longa carreira, ex-correspondente da agência BBC Brasil na Londres dos anos 60, narra de maneira não-linear a história dos fab-four de Liverpool. Com muita pesquisa, a abordagem foge do comum, não se atendo apenas aos aspectos musicais, ampliando para temas como cinema, moda, comportamento e conjuntura. Tratando de curiosidades, fora do padrão sensacionalista, o livro apresenta, por exemplo, parte dos gostos culinários e enológicos da banda. Você sabia que dentro do escritório da Apple, selo dos Beatles em Londres, havia uma cozinha de padrão internacional com um dos melhores chefs franceses da época? Uma adega completa climatizada com os melhores rótulos europeus? Sim, é realmente muito bom ter oceanos de dinheiro fluindo na sua conta bancária. O maior fenômeno pop da música na história foi, obviamente, uma máquina de fazer dinheiro, sem nenhum precedente desde os primórdios da música. Na obra, há ainda árvores genealógicas interessantíssimas traçando a origem operária da banda e de todos os diretamente envolvidos nela.
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Mas se você quer uma abordagem mais técnica em relação à música, relaxe: o autor é especialista em jazz, fã incondicional de blues. Daí a analisar profundamente a obra de Lennon-MacCartney, com riqueza e conhecimento de causa, foi um pulo. As composições mais relevantes de cada álbum são apresentadas de forma a destacar o enorme salto de qualidade que a dupla experimentou na década e meia em que estiveram juntos, desde os Quarrymen de fins dos anos 50. A divisão de capítulos reforça a ideia: os títulos são nomes de álbuns ou músicas dos Beatles, sacada pouco original, é verdade, mas muito didática para um leitor desavisado. As inserções sobre a importância da experiência “beatle” com drogas também chamam a atenção, pois destacam a passagem da inocência adolescente à malícia típica do rock sessentista. Em sua “tese”, o autor aposta nesta virada da carreira dos Beatles (de meninos em terninhos mod's para cabeludos hippies) como sendo fruto direto da experiência com THC e posteriormente, LSD. E credita a Bob Dylan esse feito, por ter apresentado a marijuana aos quatro working class heroes.

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Já utilizei passagens desta obra para algumas aulas sobre “revolução cultural” dos anos 60. A abordagem sobre a consolidação da indústria cultural de massa fica bem mais interessante, se exemplificada com seu maior expoente na música. De fácil assimilação, ao mesmo tempo em que evita a apresentação rasa dos fatos, o livro apresenta os Beatles também na forma de mega-empresa voltada ao entretenimento. Supimpa.

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Leitura agradável, informativa e formativa, típica de quem quer algo mais do que o senso comum pode oferecer. Facilmente encontrável em livrarias de usados, ou pela internet, em sítios de usados. No da Ediouro, está fora de catálogo. Na faixa de R$ 15 a R$ 20, é uma boa pedida de leitura para as férias de julho, gurizada. Para os marmanjos que já dominam o assunto, lhes asseguro: há novidades na abordagem de Muggiati. A densa pesquisa efetuada para o livro não deixou escapar muita coisa. É um livro completo, com dados preciosos sobre o processo de criação dos Beatles. Vale a pena ter no acervo particular. Um bom café, bolachinhas caseiras de nata e um livro empolgante – quer melhor?

22 de junho de 2011

Tédio - II parte

Resumo do texto anterior: ando pouco instigado a ver bandas goianas e seus shows manjados, embora tenhamos muita coisa boa por aí. E se você bate ponto na classe C, evite comprar vinhos só porque leu sobre eles em sites duvidosos. Pode se dar mal, como eu.

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E o que fazer com ¾ de uma garrafa de pinotage sul-africano que foi comprada para ser a estrela da noite, mas deu vexame? Olha, se o vinho não é bom, mas também não é uma droga – digamos apenas medíocre – compensa guardar para temperar carne. Eu particularmente gosto. Quem vem com frequência aqui (risos de sitcom americana ao fundo, por favor) leu sobre uma carne ao forno com molho de vinho que ficou muito boa.

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Tínhamos em casa um belo frango de quintal de roça, da chácara da minha avó. Nasceu de galinha da mesma procedência, vira-lata de terreiro. Há um pouco de sangue índio na linhagem deste galinheiro, mas fica longe de ser algo puro. Frangos que crescem alimentados com milho “orgânico” (tentei evitar o uso desta expressão dos chatos politicamente corretos, mas não deu), plantado na chácara sem nenhum aditivo químico, além é claro daquilo que eles acham no quintal para comer: insetos, pequenos frutos etc. Em suma, coisa boa. Carne escura e mais firme do que as bombas de hormônio ensacadas vendidas nos mercados, que alguns têm a petulância de chamar de frango. Jantar caseiro de meio de semana, terapia na cozinha, final de semestre no trabalho, a um passo das férias. Não há depressão que resista.

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Minha dieta tem me exigido um bocado. Perdi 3 quilos em um mês. A semana é marcada por coisas leves, integrais, de baixa caloria por conta da leve alta da taxa de colesterol, sem gordura, em horários mais ou menos constantes, com medicação e um pouco de exercício físico. Me mato nos dias de “feira”, para que meu sabá e meu dia do senhor tenham um pouco mais de sabor. Maldita úlcera.

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Aliás, há sabor no mundo da comida saudável. Estou novamente explorando este universo macrobiótico ético e chato. Fui vegetariano, por ideais de juventude, por 11 anos. Meu café da manhã já não conta com aquele que dá seu nome à refeição. Vez ou outra, contrariando a recomendação médica, sujo os dentes com 3 mililitros de café, e só. No lugar do néctar negro, tomo bebida láctea, com muitas fibras – há uma no mercado que é menos sem graça que as demais, combinando quinoa, ameixa e linhaça. Ou chá que não irrite a mucosa do estômago vazio: camomila, hortelã, verde. O de mate, que eu adoro, não pode. Acompanhado de biscoitos integrais, pois massa branca foi-me proibida. Estou me sentindo um hippie.

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A onda de “orgânicos” é antiga, e você deve tomar cuidado com ela. Há muitas porcarias vendidas em hipermercados com essa etiqueta. Geralmente bem mais caros, nem sempre o produtor se preocupa com controle de assepsia na sua linha de produção. Esteja atento a este ponto. Tudo de orgânico que consumimos aqui em casa não passa por hipermercados, vem diretamente da produtora, minha doce vovozinha: folhas, frutas, legumes e carnes. Outros sabores, outra qualidade, mais felicidade à mesa.

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O frango de quintal tem a carne mais firme, consistente, aguenta mais na panela, e pode ser temperado com generosidade, pois tem mais sabor. Depois de limpo e picado (parte difícil para iniciantes como eu) leva massa de sal e alho e vai marinar em um pouco de vinho, cebola, louro e azeite. Um hora e meia, mais ou menos: a fome te lembra que o frango tem que ir para a panela. Se você tiver aquelas panelas de roça em casa, abra um sorriso e ponha-a para esquentar com azeite. Não há necessidade de extra virgem, pode ser o comum mesmo.

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Frite o frango com os trejeitos de sua avó, pois pode ser este o segredo daquela comida emotiva e estupenda. Dourou um pouco, firmou a carne, é hora de uma folhinha de louro, cebolinhas pequenas cruas (não as de conserva) inteiras e cebola a gosto picada. Refogue a rapaziada toda ali dentro, lembrando que é terapia e você mandou seu relógio ir se foder.

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Eu preciso urgentemente me convencer de que o rock destas paragens não se tornou enfadonho. Dentre os muitos discos que eu possuo de bandas com o sotaque carregado puxando o erre, exalando o futum do pequi, escolhi um que me lembro ter ganho de Noodles Morak ao comprar uma camiseta na loja da Monstro: Goiânia Rock City volume 2. Devo estar em pleno inferno astral: não houve sequer uma música das 15 que me esculpisse um sorriso na cara teutônica. A coletânea organizada pela Monstro Discos peca ora pelo cast escalado, que na opinião sem vergonha deste que a emite é metade muito chato, ora pelo repertório, que não privilegiou as melhores músicas das poucas bandas que salvam na bolachinha. No frigir dos ovos, o disco é mediano. E que venham as críticas fundamentadas rebaterem minha saraivada de achismos. Seria interessante e divertido.

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E lá na sua panela cheirosa, adicione uma dose (a receita que tenho diz ¼ de xícara) de conhaque, entremeie a mistura e após alguns segundos, incendeie a panela. Eu comprei a dose de que precisava no boteco da esquina, pois não tinha conhaque em casa. Fica a dica. A chama dura mais ou menos uns 30 segundos. Se passar de um minuto, tampe para cortar a combustão. Panela tampada, deixe encaminhar tudo por uns dez minutos, atento ao aroma, para não deixar secar o molho.

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Eu geralmente sou avesso a molhos onde entra a farinha branca, mas neste dia resolvi seguir a receita e não improvisar. Não estava inspirado, estava ouvindo um disco apenas mediano, com altos e baixos e em um clássico Coq au Vin não se mexe. Dissolvi três colheres de farinha em um copo de caldo de frango previamente preparado, light ou 0% gordura de preferência. Se você tiver este caldo de um cozido antigo guardado no freezer, você é alguém privilegiado. Cubos de caldo costumam ser insossos. Este expediente todo é para que se tenha um molho com mais textura.

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Eu nunca compartilhei da máxima “se achou ruim, faça melhor”. Não vou filosofar para justificar-me, fica assim mesmo, ao léu. Sei reconhecer que a metade das bandas que detesto deste disco que ouço tem uma qualidade que eu não saberia nem de longe reproduzir. Não sou nem semi-músico, minha escola estética é o punk hardcore. A questão toda aqui, leitor amigo, é gosto pessoal. Gosto do Motherfish, do Johnny Suxxx, HC-137, Señores e Ressonância Mórfica. Das outras, sei que elas não precisam dos meus ouvidos. Diego de Moraes então, definitivamente não precisa sequer saber que eu existo, eu sei que ele vive muito bem sem minha presença de espírito. Idem o cover de Coldplay. Ops! Não é cover? Hum...

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E o vilão da terra da vuvuzela e jabulani entra em cena novamente: duas xícaras do pinotage sul-africano que já foi melhor um dia. Acrescente o vinho e o caldo de frango com farinha juntos, um em seguida do outro. A receita resolveu tripudiar da minha situação financeira: “Você, integrante intrépido da classe média tupiniquim, deve agora acrescentar duas xícaras de um bom Borgonha”. Se eu tivesse um bom Borgonha em casa, dona receita, para temperar carne, eu não estaria fazendo continha para ver se posso ir a um bom restaurante no festival Brasil Sabor, como disse no texto passado, cáspita!

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Depois do andamento pós-vinho, coloque lá na panela também quatro dentes de alho picados em lascas grandes e uma boa colher de massa de tomate, aquela melhor, grossa. Observe o molho. Se não tiver coberto o franguinho, complete com caldo de frango ou vinho. Eu pus mais um pouquinho do pinotage. Aliás a receita diz que na minha situação de metido à besta, qualquer outro vinho a base de pinot noir serve. Ufa...

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A coisa já tá com cara de fim de semana, em plena segundona: que panela bonita! Jogue agora um punhado de cogumelos frescos tipo shiitake (em empórios é fácil encontrar), deixe dar o ponto e tchã, nã nã nã! Um delicioso frango ao vinho te espera para o deleite dos sentidos. Mais uma vez, a receita me olha de cima para baixo, e soberba diz: “O vinho ideal para acompanhar este prato é o Borgonha que entrou na composição do mesmo”. Tá.
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Meu Coq ao Vin padrão C, com vinho médio, cogumelos tipo C e azeite de hipermercado ficou espetacular, para meu paladar. Imagino se haveria mudanças estruturais adicionando os ingredientes que me faltaram. Sonhar ainda é de graça, um dia eu descubro.

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Tédio é a porta de entrada para estágios mais indignos do ser. Devo combatê-lo, disse-me a doutora de birutas, em maio passado. Cozinhar é uma terapia poderosa.

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Estou aguardando ansioso a escalação para o Goiânia Noise Festival deste ano. Sempre, desde o primeiro ano do festival, a Monstro trouxe pelo menos uma banda que eu queria muito ver. No texto passado te contei sobre o Dance of Days, há uns anos atrás por aqui. Os rumores que ouço para este ano são muito animadores. Mas como são conversas de alcova, e como ainda vou papear com um Monstruoso antes do evento, deixo este assunto no banho-maria.
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Sei que o CD que pus na bandeja do meu velho e cansado Phillips não me inspirou. Continuo chateado. Fazendo jus à fama de ranzinza. Desliguei o som na hora de comer. House repetido, 6ª temporada, muito mais interessante.

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Serviço: frango médio de quintal, orgânico a R$ 15. Chácara Carneirinho, Brazabrantes (estrada Deuslândia-Nerópolis). Não há telefone, nem site. Ou seja, é o paraíso!

20 de junho de 2011

Tédio

Tédio. Nada mais. Venho sentindo uma incrível preguiça de frequentar concertos na capital onde nunca faz frio de verdade. Aliás, quase minto: senti-me muito tentado a aceitar o convite de um amigo para a apresentação da orquestra onde ele toca clarinete. O evento rolou no teatro do colégio Santo Agostinho. O repertório era de encher os ouvidos: neoclássico, música moderna e baratos afins. Pena que na sexta 17 minha agenda já estava comprometida.

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Você também sente um marasmo imenso na produção musical deste cerrado vermelho? Parece que Háthor inspiradora anda meio avessa às guitarras distorcidas e povo pagão. Os produtores de eventos, nas mais variadas vertentes, se esforçam: lugares novos, aparelhagens de som melhores, estruturas maiores, divulgação dirigida, novas embalagens e... insosso. Ninguém aqui do meio oeste caiapó tem me persuadido a sair dos meus aconchegantes 58 m² sem varanda. Mas é claro, esta é uma impressão pessoal. Talvez para você, estejamos em meio a uma nova revolução. Vai saber, né? E se você pensou que eu teria a empáfia de não me incluir nesta, já que participo de algumas bandas goianienses, rodou meu chapa. Tá eu ali no meio também. A impressão que eu tenho é ter me esperando na cena rock aquela “belíssima lasanha bolonhesa de domingo, com aquela massa comprada no 'empório' que custa os rins, excelente carne moída sem gordura, presunto e queijos bons, requentada no almoço de quarta”. Não sou bom com as metáforas, mas é isso.

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Em casa, venho acompanhando o festival Brasil Sabor, de gastronomia brasileira. Em sua 6ª edição, o barato é ver aquele restaurante que você gosta, mas tem medo da conta e só foi uma ou duas vezes, praticar preços mais convidativos a esta parcela deselegante da classe média verde-amarela. Não somos o lumpem trôpego, nem somos os eleitos de Mamon. Como é difícil esta posição no sistema. Bacana pensarem que podem ampliar as vendas, chamando a audiência da Sky promocional de R$ 69,90 para estacionarem seus populares financiados na porta e fungarem vinhos ordinários nas “taças” iguaizinhas às do Olivier Anquier, procurando traços de terra mediterrânea e castanhas torradas com tabaco cubano. Chique, né? Nesta semana, terei meu momento “inclusão social”. Vou comer em um lugar onde estive uma vez, mas que serviu algo realmente bom, e por isso merece minha saudade. Não pelo fato de ser um restaurante “chique”. Sinceramente, isso pouco importa para mim. Após gastar muito Labra preto nº 2 e borracha Mercur azul-vermelha que apaga caneta, descobrimos que há uma brecha no orçamento doméstico para tanto. Só não rola quinta-feira: tem House no Universal Channel. Depois te conto sobre esta estripulia operária.
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Sobre ser “de bacana” ou não, a melhor pizza que eu já experimentei em Goiânia, aquela com jeito de pizza paulista do Bexiga, é de uma obscura casa do bairro São Judas Tadeu: a “La Romana”, que é deveras melhor que a tradicionalíssima Scarolla. Falo sem medo de meu leitor tirar a prova. Nada de massa frita ou pré-cozida, nada de modismos estúpidos. Qualidade de matéria-prima e só. A “La Romana” não está inscrita no festival Brasil Sabor. E não se paga nem três dezenas de mirréis na melhor pizza da casa.
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No “line-up” dos restaurantes participantes de Goiânia no Brasil Sabor, a coisa é bem sortida. Tem para todos os gostos e bolsos. Sabemos que não há nada de extraordinário por aqui, as touças de capim seco ainda se esvaem ao vento nas ruas secas e empoeiradas de Goiânia, ao som da trilha sonora de “Uma pistola para D’Jango” – ou seja, não espere novidades. Até cadeia de fast-food está na brincadeira. Ah, a “nova gastronomia”...
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Falando em novidades, uma das tendências mais destacadas no mundo das panelas de Iracema é muito apreciada e antiga por aqui no sertão: a confort food. Tem gente pagando caro, muito caro, para comer vagem com carne moída. Tem gente que não se avexa em retirar onças da carteira para saborear lombo de porco frito com manjericão. O lance é fazer a “cozinha da memória”. Pesquise na rede o que se servia no D.O.M. de Alex Atala, um dos melhores restaurantes do mundo, em São Paulo. É moda. Por aqui, eu conheço lugares onde a comida ainda é servida por um valor justo, e conseguem me fazer gastar mais de uma hora à mesa. Comida que faz lembrar a casa da vó. Falei sobre essas sensações em outro texto.
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As bandas goianas de rock, nas mais variadas tendências, tem apresentado uma modorra soteropolitana para se inovar. De clássicos estamos bem servidos. Músicos com qualidade dentro de suas propostas, trabalhos com qualidade dentro daquilo que querem passar. Mas eu não consigo mais me empolgar. O problema sou eu: fico encafifado com a continuidade. Entenda bem, paciente leitor: é comigo. Vejo como algo temeroso a onda já antiga de “voltas” de bandas velhas. Não há nada de novo no front, com o perdão da expressão rota. Algumas poucas bandas conseguem “confortar”, e me fazer lembrar de coisas legais: confort music? Não, deixemos o estrangeirismo para lugares mais ousados. Não vejo a hora, por exemplo, dessa moda de velocidade dentro do hardcore passar. Não aguento mais o enorme tédio de verificar o quão rápido é o baterista desta ou daquela banda. Vejo que se perdeu, e muito, referenciais importantes de estrutura musical, ultimamente. Há trabalhos que beiram o total non-sense: barulho por barulho, e só. Liricamente, não é diferente: discursos prontos, letras produzidas em série fordista. De cada cinco bandas das novas safras, sete querem ser ultrarrápidas. Muito grind, pouco hardcore punk. Haja paciência.
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Por enquanto, fico aqui calculando minhas possibilidades de desfilar minha “medianidade” para os herdeiros dos coronéis nos bons restaurantes da cidade. Assim, Pete Seeger vai me consolando com seu folk meio country, meio gospel. Redescobrindo o fantástico “God Bless the Grass” de 1966, a gente sente que Bob Dylan é somente a ponta de uma montanha de coisas boas feitas em tempos inspiradores, como o veteraníssimo Seeger. Desculpe-me o saudosismo por algo que não vivi, mas não se deixar levar pela sensibilidade das canções de Seeger só é possível para aqueles que não apreciam música como arte, somente como entretenimento. Ou para fãs de Malu Magalhães.
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De epílogo, um desabafo: você exercita seu classemedianismo bebericando vinhos safados, de bom “custo-benefício”? Comprei, neste fim de semana, o sul-africano Obikwa Pinotage, safra 2010. Empolgação de momento, planejando uma festinha a dois, só sorrisos. Peguei a garrafa sem pestanejar – já havia tomado uma garrafa na companhia de amigos, e lembrava-me de ter sido legal entornar aqueles 750 mililitros. Festinha rolando, voltei à geladeira para prepará-lo. Eis que me deparo com uma tampa de rosca. UMA PORRA DE TAMPA DE ROSCA? Sim. Como, meu São Baco, eu não percebi? Como aquilo havia parado ali? Por que eu não inspecionei a garrafa antes de comprá-la? Quem gosta de beber vinho sabe o tamanho da minha frustração. A rolha sintética de um ano dantes já era ruim. O chileno Rio Alto Carmenére salvou a noite. Ainda, em tempo: furando o regime por conta do meu tratamento, estou menos estressado e mal humorado.
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Serviço: La Romana Pizzaria. Av. Brasília, São Judas Tadeu, Goiânia. (62) 3205-4000. Sugerimos que comam "in loco" para potencializar a experiência.

12 de junho de 2011

Emo-crying-core não era crime de consciência na ditadura hardcoreana

O ano era 1997, se não me engano. Vou confiar na memória, embora o deus Google esteja aqui a me cobrar uma consulta ao seu oráculo. Miniginásio da saudosa ETFG (Escola Técnica Federal de Goiás), atual IFG. Minha memória prega peças, mas penso que neste caso não há risco. Trabalhei anônimo na portaria do 3º Goiânia Noise Festival, em troca da entrada gratuita para o dia do Dance of Days. Eu aguardava ansiosamente. X na mão, fitinha do Personal Choice no walkman de camelô, camiseta do Vieja Escuela, radicalismo e intolerância afiados. Lá ia eu para um show de hardcore, panfletário, aos moldes da minha catequese hardcoreana.


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Dizem que apareci em contracapa de disco do Paura, banda que conheci ao vivo neste evento em questão. Taquepariu! Que show foi aquele! Eu realmente não consigo me lembrar se eles vieram antes do Dance of Days no palco. Mais uma vez: eu sei que poderia investigar aqui, mas penso que perdemos o charme do texto assim. É romântico escrever no ímpeto.


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De muitos festivais monstruosos em que estive presente, guardo este como um dos mais fodas. É óbvia a carga saudosista nesta impressão. Eu ia ver um “ídolo” do hardcore de perto, e pelo clima do festival, rolaria uma troca de ideias, tietagem mesmo. Nenê Altro era o ícone do straight edge brasileiro nos idos do final dos anos 90. Eu participei intensamente deste momento, entrei de cabeça como qualquer adolescente: por mais ou menos um ano. Fase. Depois esfriou, a ideia amadureceu e de repente o lance me pareceu bobagem. Não o hardcore, claro, mas o radicalismo e tudo o que ele arrastava junto. Não havia internet disponível facilmente. As notícias corriam no boca a boca, mandava-se cartas e conversava-se olhos nos olhos. Eu pretendia escrever um fanzine com uma entrevista com Nenê Altro. Acabei não o fazendo, e não me lembro o que deu errado. Talvez por timidez, algo muito peculiar em minha personalidade.


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O cara no palco era realmente um show man. Era ainda careca, com cara e jeito de “hardcore guy”, mas corria o babado (sim, punks fofocam, e muito) de que sua nova banda, o Dance of Days, era coisa de traidor do movimento. Coisa de moda. Diziam: “aquilo não é hardcore truzão”. Afinal, o lance era emo-crying-core, na definição do próprio Altro, em 1997. O disco “6 first Hits” é algo entre o inspirado e o genial, na bonzoniana opinião deste arremedo de crítico. E eu achei de uma coragem ímpar as letras que povoam o encarte. Sem google translate, ou sítios de letras de música traduzidas na internet, antigamente a gente ia pro quarto, colocava o som rolando e gastava o já surrado Michaelis português-inglês. Horas a fio, aprendendo a língua do império da maneira mais divertida possível. Não é o caso deste disco: o encarte trazia as traduções das letras carregadas de sentimentalismos diversos, de caráter introspectivo. Eu conheci o Black Flag neste encarte, aos 18 aninhos, mas ouvir foi só mais tarde, dias depois, porque não havia ainda a onda avassaladora e revolucionária do mp3 tão disponível. Era raro alguém do meu círculo social ter acesso a isso.


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Ao vivo, a banda era ainda mais rápida. Os instrumentistas eram muito bons, pareciam dublar o CD. E ninguém, repito, ninguém gritava para a banda “emos imundos” ou “veadinhos” e coisas dessa linha. Todas as figuras do hardcore de Goiânia estavam lá. Curtindo, pogando, moshando. O stage dive era suicida, amigos! O palco era muito alto e o público não tão numeroso, mas mesmo assim, eu saltei uma porrada inumerável de vezes. Eu ainda conseguia, no alto dos meus 50 quilos e recém-promovido a adulto, ao menos na idade.


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O que deu errado de lá pra cá com o emo, eu não quero pensar sobre. Deu errado, fato. E a apresentação da banda, naquele tempo, apagou qualquer resquício de intolerância de minha parte, já que eu vivia o auge da minha fase SxE. Proliferaram-se aqui na capital do meio oeste zines com temas subjetivos, sensíveis, poéticos e afins. O meu Mahoro seguia essa linha: poesia duvidosa, textos herméticos com significado apenas para a pessoa alvo, visual sujo proposital, milimetricamente calculado para dar a impressão pretendida no público. Lembro-me do bom “Existir”, do Cássio Cachoupa’s. E do zine do meu xará André Lopes, da ótima banda SELF. Sei que qualquer zine destes que circulasse em Goiânia nos tempos atuais, seria classificado pejorativamente como emo. Tempos de intolerância pós-moderna, dizem uns caras por aí.


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Não havia franjas, cabelos com inspiração em araras, ou gente esquálida fazendo tipo de retardado infantilizado. A indumentária e a estereotipagem eram outras. E curioso, ninguém se rotulava como emo. Era apenas mais um dos infinitos subgêneros do hardcore, e só. Ouvir Embrace não era nenhum problema. Dizer que gostava de música emo não provocava risos em ninguém.


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Se Júlio WxCxMx estivesse aqui em casa neste sábado 11 de junho, poderia ouvir este disco emblemático da música rápida verde e amarela comigo. Eu sei que ele gosta. Gosta também de cerveja, agora. Em 1997, ele seria um “caído”, hehehe. A Heineken que gelei profissionalmente acompanhou bem minha tarde de fantasmas dos tempos adolescidos. Está cada vez mais barata nos hipermercados e as características próprias ainda não evaporaram. Ou seja, devemos aproveitar, antes que aconteça com a marca o que rolou com a Bohemia, para ficar em um caso só.


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Meu companheiro baterista de Ímpeto e Tirei Zero teve um compromisso inadiável e não pode estar no QG do blog. Eu estava a fim de compensar o sofrimento que a nova dieta me vem infligindo. A lógica é cuidar da semana para que em seu final eu possa extrapolar um pouquinho só. O rapazinho perdeu uma degustação de cervejas, vagabundas ou elaboradas, da pontinha da orelha. Além de uma alcatra marota a palito. Ops! Nesta parte eu ainda não consegui desvirtuar o jovem mancebo. Júlio faz parte da nova safra influenciada pelo straight edge, surgidos em meados dos 2000. Sei que ele não se define assim, é apenas uma pequena provocação, hehehe. Perdi um bom papo sobre rock, que pretendo ter em outra seara. Júlio é uma enciclopédia do hardcore fubazento, e produz um dos eventos mais bacanas desta cidade, o Thrash Core Fast, conjuntamente com Pedrinho Chassi de Grilo e Bruno The Boss. Seria memorável este encontro de gerações.


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Além da verdinha “pescoço longo” que há muito não é mais feita na Holanda (digo a que circula por aqui, nas terras de Tupã), havia a ex-estadunidense Budweiser 1 litro, com sotaque portenho de nuestros hermanos, que fabricam cervejas melhores que as nossas, no geral. Havia a ex-belga e agora corada do sol destas praias de Manoel Carlos, Stella Artois. E fechando a cesta “lupulosa” a indispensável Baden Baden de trigo Golden Ale. Se fodeu, Julhão.


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A Heineken ganhou o combate inicial. Tomei essa lager premium para amenizar o calor da tarde, e seu sabor maltado mais pronunciado levou minha língua a lugares mais distantes e prazerosos, se comparada a Stella Artois. São duas excelentes cervejas nacionais, comparadas ao caldo ambeviano ou ao produto lá dos lados de Itú. Ando realmente muito entediado das marcas líderes. Delas, só não chutei o balde ainda da Bohemia. O resto passe a régua. Se você quer saber como são as boas pilsens da Europa, a Heineken é um bom caminho, mesmo na receita mais comportada brasileira. Não tenho referências do mercado top do velho mundo, pois meu holerite grita “não” toda vez que namoro garrafas mais interessantes.


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Quero contar aos meus leitores um fracasso culinário desta vez. Não sou chef, apenas mais um curioso e apaixonado por comida boa. Não haverá problema em confessar que nem tudo o que preparo na cozinha fica bom. Saber fazer uma boa torradinha para acompanhar uma degustação de cervejas é coisa que não exige PhD com Ferran Adriá. Então beleza, basta ter um pão de forma fatiado bom, macio. Cortá-lo em 4 partes, distribuir em uma assadeira levemente untada de azeite, que vai pra cima do pão também. Eu coloquei uma pasta de alho em cima, e um pouco de orégano. Mas calculei mal a temperatura do forno, passando demais as torradas, que fizeram jus ao nome após eu retirá-las – nunca estiveram tão... torradas. Joguei meio saco de pão, azeite importado bom, duas colheres de pasta de alho e uma porção de orégano no lixo.


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Paguei por um ícone, uma marca lendária do mercado americano. Levei pouco pra casa. O custo-benefício da Budweiser é um dos piores do mercado de cervejas vagabas. É uma cerveja correta, e só. Pouco sabor, pouco malte, imperceptível, aroma discreto, espuma rala e rápida, cor clara. Minha esposa gostou. E isso é um indicativo de leveza, de uma cerveja que refresca, mas que empata com as grandes do mercado brasileiro. E por R$5,98 o litro, lá no Wal Mart, eu me senti enganado. Eu já tomei a Bud americana, mas tinha eu a inocência dos 15 ou 16 anos, difícil recordar as impressões. Dizem que é uma boa cerveja “de massa” por lá.


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Eu gosto muito do Againe, banda velha de Sampa, que tem um álbum fantástico de 1997 chamado “Songs about the week here, other places, other thoughts”. Guga Valente, meu grande amigo de longa data, rotulava o Againe como som mal feito, displicente. Digo isso para lhe dar um contrapeso de opiniões. As letras são nonsense, pretensamente poéticas, em inglês de colégio em sua estrutura, bem cantadas, e quando querem dizer algo, melancólicas ao extremo. Duas guitarras muito entrosadas em oitavas que se alternam, um baterista muito criativo e rápido com um baixista igualmente bom. Considero-os uma das grandes bandas dos anos 90 no Brasil. Hardcore com melodia, aviso. O disco do Againe, com suas 17 músicas, rolava ao (pouco) sabor da Budweiser enquanto eu tentava me redimir do fiasco das torradas. Aprecio a alcatra, carne firme e saborosa quando frita para tirar gosto. Fatiada, do calibre do dedo mindinho, com bastante cebola, alho e limão, fica espetacular, tipicamente botequeiro.


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Era hora de matar o dia que já ia longe. Beber uma Baden Baden exige uma ocasião. É uma cerveja densa, apenas para iniciados. Já fiz o teste mais de uma vez: bebedores inexperientes costumam apanhar da cerveja. Disse no texto passado que ainda vale o preço cobrado. Mas temo pelo seu futuro, pois agora a marca pertence à desastrosa Schincariol, uma das piores marcas de cerveja do mercado, na esnobe opinião deste ébrio. Veja o que ocorreu à família de cervejas Devassa: eram interessantes, principalmente a red ale, "ruiva". Nada espetacular, mas eram honestas. Prove a catástrofe em forma de cerveja chamada de “Devassa bem loura” e imagine o caminho que a Baden Baden pode rumar. Isto povoa meus piores pesadelos.


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A Golden Ale é uma cerveja de trigo cremosa, com espuma densa e persistente, saborosa. Cai pesada no copo, que se for o correto preserva por mais tempo a espuma, segurando a carbonatação. É adocicada, com presença de mel e canela, além do malte perceptível. Embora seja uma das mais leves da família, com 4 e pouquinho de álcool por volume, é excelente pedida para encerrar o dia e dormir feliz. Eu dou de costas para esse lance de harmonização, mas desta vez senti falta de mais corpo na cerveja, como a Red Ale do texto passado por exemplo, pra acompanhar carne vermelha. A Baden Baden Golden Ale é indicada para pratos delicados. E eu acredito. Novo escorregão.


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Júlio perdeu uma degustação que não sei quando vou realizar novamente. Minhas histórias de moleque panfletário e politicamente correto vão ter que esperar novos ouvidos desocupados. Minha vida gastronômica no meio da semana voltará a ser a mesma de um sacerdote hindu vegano. E minhas velharias em CD continuarão me dando as memórias necessárias para me orgulhar das bobagens que dizia e fazia. Até mesmo ter sido emo.


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A propósito, saca esse sítio aqui, o Brejas. Tem muita coisa interessante.


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Pra você que crê em Mamon, feliz noite dos namorados.

30 de maio de 2011

Leaf Hound e Dionísio cervejeiro: a volta em uma despedida.


Estou de volta. Passei por um longo e intenso processo de desintoxicação. Não foi como o de Fábio Assunção ou Vera Fischer, mas me ajudou bastante a determinar novas prioridades.


Dei um tempo em comunidades interneteiras, e passei a valorizar um pouco mais o contato real. Eu precisava disso agora, não sei se você precisa. Comigo funcionou, de repente não é bom pra você. Dei um tempo nas minhas bandas, evitando ensaios constantes, pra ver a coisa de longe e melhor posicionado. Passei um susto nos meninos de uma delas, o Tirei Zero, que acreditaram piamente que eu estaria bundando do projeto. Na verdade, como me fez bem esse momento “rehab”! E também parei de escrever o blog por um período muito longo, meses a fio. E nesse ínterim, não deixei de pensar se deveria retomar. Posso dizer que ponderei cada pedido recebido para isso, e é bacana dizer que não foram poucos. Eis-me aqui, de frente a página diminuta do Word Starter, com o cursor nervoso a piscar, como se pedisse velocidade naquilo que coloco teclado adentro. Estou de volta ao Rango Rock, até enjoar de tudo novamente. Na lista das coisas que eu gosto de fazer, este espaço se ocupa de duas delas: rock e comida. Não poderia mesmo ficar muito tempo longe.


E nessas folhas a menos do calendário 2010/2011, aconteceu algo previsível e já aguardado, com este que gasta a ponta dos dedos aqui no QG do blog: apareceu uma úlcera no meu esôfago, além de uma hérnia de hiato (releia o texto de estreia do blog, aqui.). Gastrite e refluxo são dois problemas sérios, e eu tripudiei deles por uma década. Isso mesmo: dez anos convivendo com estes problemas por conta de hábitos alimentares desastrosos – gordura, açúcar, cafeína e álcool em tempos diários nunca regulares. Medidas paliativas à base de omeprazol e ranitidina só adiaram o epílogo desta tragicomédia. E hoje, sou um apaixonado pela baixíssima gastronomia sem o principal instrumento de trabalho, pré-requisito básico para desventuras nestas paragens: um bom e resistente estômago. E ainda não cheguei propriamente ao terceiro círculo do inferno dantesco: estou em uma dieta rigorosa, sob medicação que só surte efeito caso eu me renda. Castigo merecido, aceitação resignada. O Limbo me aguarda, redentor após os três meses de penitência nos porões de Dite.


Mas indo ao ponto que move este blog: das milhares de coisas que ouvi nestes dias, aquela que fisgou a predileção do meu player foi gravada há 40 anos. É certo que conheci um caminhão de bandas nestes últimos dias sem escrever aqui, mas nenhuma me chamou mais a atenção do que o Leaf Hound e seu fantástico disco “Growers of Mushroom” de 1971. Timbres que hoje seriam chamados de vintage, onde é possível ouvir os dedos dos músicos passeando pelas cordas, excelentes riffs que evocam muita coisa boa do classic rock setentista, uma pegada stoner fodida, e o vocal de Peter French arrebentando. A banda é britânica, daquela safra de fins dos 60 e início dos 70 – Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple e outros. Vamos deixar comentários óbvios sobre essa geração pra lá, né?


Com muita preguiça de googlear, estas são as informações de que disponho de cabeça. Me parece que lançaram só esse disco, mas vá por mim: se você gosta de The Galo Power e ainda não conhece este trabalho, não brinque mais em serviço. Eu vi um vinil destes caras no Mercado Livre meses atrás, e havia três dígitos antes da vírgula, lá no preço. Se eu fosse rico, compraria.


A área da educação particular, na qual atuo como professor, tem lá seus problemas, é vero. Mas há também pequenos mimos reconfortantes, como feriados emendados, à moda do funcionalismo público. Curtindo dias de modorra em casa, é lei no lar de senhor e senhora “Alemão” cozinhar coisas decentes. Não sou católico e não sei quem é a santa padroeira da capital do meio-oeste onde não há inverno. Mas um feriado pra quebrar o rigor do interminável maio é sempre bom.


Meu fornecedor de carnes bovinas furou comigo feio, e não havia meu corte predileto: a suculenta e saborosa fraldinha, nova (?) sensação grelhas à fora nesse Goiás sem porteira. Então, inovar foi preciso. Nunca havia preparado uma maminha ao forno. Comprei uma “extra”, limpa e sem gordura em excesso ou sebos pendurados. Coisa bonita mesmo, de um quilo e uns choros. Até ao final da noite da segunda-feira 23 de Jorge e Mateus na 66ª exposição agropecuária, ela estaria assada e devidamente aprovada pelos paladares aos quais foi submetida. Cozinhá-la foi parte de uma terapia anti-estresse de casal aqui no minúsculo três quartos de 58 m². Moramos nas imediações da “Pecuária” de Goiânia. Preciso explicar mais alguma coisa?


O primeiro petardo do disco tem um riff grudento, do jeito que deve ser pra esse tipo de proposta vista no Leaf Hound – o som chama-se “Freelance Friend”. Liricamente, muito duplo sentido com expressões jargões da época (“do you feel it, babe?”, ou feels like isso ou aquilo...) povoam toda a obra, e não são o destaque. A música “Work my body” é típica nisso, sendo um flerte forte com o blues, origem musical da banda. A baladinha que vem na segunda faixa também é foda demais: “Sad road to the sea” lembra coisas do Grand Funk Railroad, considerando-se que o vocalista do Leaf Hound é mais técnico, na minha franciscana opinião.


A maminha é uma carne com menos sucos do que a fraldinha. Assada, essa proporção se torna ainda mais desvantajosa para o corte. Pedi uma peça “premium”, e não poderia prever nenhum problema, pois são nacos vizinhos no boi. Há variantes, lógico. Mas a fome era um bom persuasivo. E era minha despedida do mundo, antes de me entupir de remédio e comida (arrrgh!) saudável. Um futuro desolador se avizinhava, era ela ou comer fora. Peça fresca, do açougue, nada embalado a vácuo.


Ouvindo o Leaf Hound a gente entende porque o Black Drawing Chalks foi aclamado. A fórmula está ali, naqueles caras que hoje estão grisalhos e foderam com o mundo. Certo que a banda goiana é mais densa, pesada diriam uns, mas a compilação dos elementos foi muito bem emulada daqueles anos em que o rock se tornou sujo, com poeira da rota 66. Eu sinceramente queria ter uma banda com esse jeitão setentista. Me falta o talento, assumo depois de rápida consulta aos meus garageiros botões (eu amo o texto do Mino Carta, sim...)


A maminha da alcatra vai marinar inteira no suco de uma laranja, um limão, shoyu, uma cebola média picada, alho à rodo, pimenta verde e um vinho seco a seu gosto. Eu usei um bom pinotage. Dica aos iniciantes: aquelas coisas esquisitas que chamam de vinho por aí, que geralmente se conhece por “suave de mesa”, não servem nem pra temperar carne. Acredite, fiel adepto do “Cantina das Trevas”.


Tem um som nesse disco que é o espírito das bandas da época da boca-de-sino: “With a minute to go”. Inspirada. Imagino-a ao vivo, com os agudos firmes e jeito blueseiro do vocalista. Nasci na época errada, me diz a alma ligeiramente deprimida que povoa este corpo empenado.


E você pergunta: o vinho e os sucos cítricos vão se dar bem lá na minha tigelinha? Não tema, infant gourmet da classe C tupiniquim. É só ter bom senso. Derrame uma xícara de vinho, e só. Não queremos que o álcool se pronuncie demais. A menos que você queira temperar carne com aquela garrafa do velho mundo guardada na sua adega climatizada. Aí, o papo é outro. Agora, se seu score é igual ao meu e você dispõe de um "vinhozinho", não seja muquirana. Use aquele restinho da noite passada, afinal, garrafa aberta não conserva mais o vinho.


Antes de ir pra travessa da sua mãe mergulhar no molho escuro, a carne deve passar por uma massagem generosa com massa de alho e sal. A minha é caseira e eu sei a quantidade de sal que ela possui. Fure a carne, treinando seu lado Jack londrino. Só não a estripe (me ocorreu este trocadilho infame enquanto preparava o assado, chiste devidamente reprovado pela Dri. Mas mesmo assim, eu repasso). Pelos furos entrarão os sucos e o sal com alho. Marinou uma hora e alguma bobagem, é hora de passar um azeite supimpa na sua forma de alumínio, aquela de fundo mais fino mesmo. Mande todo o conteúdo cheiroso e escuro sobre a carne bem postada, banhando-a e ajeitando tudo bem bonito. É divertido demais.


Cara, apresentar o disco do Leaf Hound e não mencionar a canção “It’s gonna get better” seria um grande deslize. É aquele som pra cantar em coro abraçado com seu amigo, bêbado em final de festa. Lindo. Aqui em casa, não somos adeptos de música alta, estridente. Deixo esta falta de polidez e senso de coletividade para alguns ostrogodos que dividem o prédio comigo. Mas em raras vezes, excedo um pouco, por empolgação etílica, o volume do velho Phillips. Esse disco merece este lapso de civilidade.


Para incrementar as ondas de energias negativas que serão emanadas em direção ao meu 301 bloco 4, a carne irá para o forno, coberta com papel alumínio na primeira meia hora, esbanjando perfume enquanto cozinha. Rock clássico e cheiro de comida boa: vizinhos, mordei os cotovelos!


Bebi pouco nesta feita, e talvez tenha acontecido algo fenomenal com minhas papilas gustativas nesta noite: surpreenderam-se com a pré-condenada Bavária Premium. Em tempos plúmbeos como estes, onde a inflação manda beijos com gosto de “revival” e come meus ganhos, economizei na cerveja boa. E pra abrir um sorriso na sisuda face de contornos germânicos deste que escreve, a Bavária Premium só precisou gelar direito. Eu fui até o rótulo da garrafinha de 355 mililitros: disseram-me que ela é feita com matéria prima importada, cereais puro malte. Aí eu equacionei tudo: para uma puro malte, falta nascer de novo. Mas pelos irrisórios R$ 1,29 pagos por unidade, foi um dos melhores “custo-benefício” que tive até hoje, tratando-se de cervejas baratas. Ao arriscar e não comprar as mesmices de sempre, tive uma grata surpresa. Nada incomum, apenas acima da média das cervejas medíocres.


Metade da volta do ponteiro maior: é hora de conferir a maminha. Deve estar ainda com uma boa quantidade de molho, mas já assada parcialmente, rosada. Tire o alumínio e acrescente batatas cortadas em cruz na transversal, e cebolas com o mesmo corte. E aí vem o toque de diversão: arrume tudo pra ficar bonito, igual ao que a vovó fazia no domingo de férias. As batatas não devem ser muito grandes, para não ficarem crocantes meia hora mais tarde. E o aroma disso tudo? Dá orgulho, né? A Dri, minha esposa, mandou um arroz branco do jeito que a gente ama: cebola e alho de sobra, mas sem corar. Uns tomatinhos maduros no azeite e pronto. A estrela da noite já tem companhia.


E se você realmente achou que nós passamos a noite toda bebendo Bavária, é porque não me conhece. Economizo nas cervejas de entrada, aquelas que usarei apenas para me distrair enquanto cozinho. Mas na hora da degustação, sacamos a encorpada e deliciosamente amarga Baden Baden Red Ale, tipo Barley-wine, um arroubo de prazer, especialmente para a parcela que não consegue beber cervejas belgas, tchecas ou similares, por limites de caixa. Forte, com seus 9,2% de teor alcóolico por volume, vermelha densa, produz uma espuma cremosa e saborosa. Duas garrafas nos acompanharam na carne. Vale cada centavo, enquanto a Schincariol não a destrói.


Levemente triste por ser a minha despedida gastronômica, provamos e aprovamos. É um prato ácido e forte, e a carne ficou firme, com uma fina camada tostada, e um miolo entre mal passado e ao ponto. Exatamente como prevíamos. Usamos o forno médio pra isso. Casou em núpcias perfeitas com o arroz branquinho. E a Baden Baden mostrou porque é considerada uma das melhores cervejas do Brasil: pra carnes fortes em tempero, eu não conheço nada melhor nas terras de Iracema. Ouvindo o disco do Leaf Hound duas vezes, tivemos uma noite invejável. A obra puxou outras tão sublimes quanto, e eu voltei às minhas velharias pra fechar esta festa. Revisitamos o Sabbath de Ozzy em vários discos, já ligeiramente bêbados pela quantidade dionísica de álcool injetada pela Baden Baden em nossas cabeças. Assim, com a língua grossa e teimando em não executar exatamente o que eu mandava, prometi à Dri: vou reativar o Rango Rock. Assim, emotivo mesmo, disse o ébrio mezzo teutônico mezzo roceiro. Foi importante, por ter sido o primeiro passo concreto para abandonar mais uma forte crise depressiva que incomodava as pessoas que eu amo à minha volta. São pouquíssimas, é verdade, mas mesmo assim elas não merecem um Alemão deprimido. Torno-me realmente insuportável.


Ah! E sobre a despedida gastronômica, aviso ao leitor: sempre tive uma pontinha autodestrutiva. Não estranhe se outros pratos fortes pintarem por aqui.


Leaf Hound em um blog que eu frequentava: baixe e deleite-se.