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27 de junho de 2011

O último Birita: melhor foi ir de estômago cheio.

Foi um dos finais de semana mais agitados dos últimos meses para nós, a equipe do blog: dois casamentos de amigos, sendo padrinhos em um, com as respectivas festas – ambas muito boas. Festas juninas por aí e de um dos colégios onde trabalho. Duas apresentações com minhas bandas: Palmatória, no sábado e Tirei Zero no domingo, na programação do Birita Rock Atitude, quintal do Fabiano na Nova Suíça. Ufa, sobrevivemos.

Não fomos a nenhuma casa indicada em Goiânia pelo festival Brasil Sabor, comentado por aqui uns textos atrás. Não pelos valores, havia várias opções bem acessíveis. Mais pelo cardápio: incrivelmente, mais de 30 opções de pratos, e nenhum nos seduziu. Alguns triviais demais para tirar algum incauto de casa. Onde já se viu oferecer estrogonofe de carne fast-food em festival gastronômico? A agenda apertada e a falta de criatividade dos chefs da capital de Goiás fizeram com que este blog aguarde a 7ª edição do evento.

Comer bem sem precisar enfrentar trânsito e convenções sociais é sinônimo de cozinhar em casa. Qualquer pessoa minimamente interessada em gastronomia não teria dificuldade alguma em executar as receitas oferecidas pelas casas goianienses participantes do festival Brasil Sabor. No sítio da internet deles estavam todas elas disponíveis. Então, nos perguntamos: qual o sentido de pagar mais, para comer algo que era previsível? Domingo na cozinha dos apertados 58m².

A qualidade do que será seu almoço começa pela escolha dos ingredientes. Treine como escolher uma boa peça de carne. Pesquise na internet os cortes adequados, leia bastante antes de comprar. Dá um resultado fantástico.

O miolo da alcatra é muito saboroso quando fica no ponto certo: não pode assar demais, pois tende a secar rápido. Compre uma peça inteira e limpa. Não é falta de educação pedir ao açougueiro que trabalhe a peça para você. Mais ou menos um quilo é o ideal para a receita que eu tenho aqui. A minha tinha 1,2 kg. Serve fácil quatro pedreiros.

Com verdadeiro espírito de monge, fure a peça e massageie alho, uma pitada de pimenta calabresa seca, quatro folhas médias de louro, alecrim fresco (um ramo servido), duas cebolas médias, pimenta bode vermelha e verde, molho shoyu bom e um limão. Isso tudo descansa com duas camadas de sal grosso: uma forrando o fundo da marinada, a outra por cima da carne. Vinte minutinhos. Sal comedido, pois eu exagerei um pouquinho e senti depois. Forno pré-aquecido médio, uns 225°C. Enquanto marina tudo, cozinhe no ponto “al dente” algumas batatinhas tipo conserva em sal e azeite, com casca e tudo, obviamente higienizadas. Organize tudo na sua assadeira de vidro – carne, molho, temperos, batatas cozidas. Faça uma cama de cebolas cortadas na vertical para colocar o miolo de alcatra para assar. Tudo posto, mande um generoso fio de azeite sobre tudo. Cubra com alumínio e vá beber ouvindo música.

Um arroz branco com alho e cebola, simples e por isso fantástico, solto grão por grão, é um parceiro e tanto. Em um dia mais iluminado passarei aqui uma dica infalível para este ponto de arroz. Stella Artois trincando dá as mão numa boa com a carne também. No Bretas Jaraguá encontramos a cerveja por R$ 1,89. Algo meio tabelado, se você acompanha esta marca.

Trinta minutos no seu forno, vire a carne e tire o papel alumínio. Mais ou menos uns vinte minutos depois, faça uma prova. A minha estava no ponto perfeito: macia e suculenta por dentro, casquinha tostada por fora. Levemente salgada por carregar a mão na hora de mariná-la. Alecrim e louro ficaram bem juntos, ambos perceptíveis no paladar. Picante também, pois a pimenta calabresa é forte, sugiro que entre somente como um “plus”, para não arruinar seu prato. A pimenta bode entra como toque estético, para colorir a carne. É inofensiva se usada comedidamente. Autocrítica: nota 7,5. Médio-bom. Olha ela sorrindo pra você na cabeça desta postagem de hoje...Desculpe minha pouca habilidade com uma câmera fotográfica. Idem com a apresentação do prato.

No Birita Rock Atitude, a mesma casa, o mesmo banco, as mesmas ervas relaxantes e o mesmo jardim. O mesmo pesticida rotulado Nova Schin servido como se fosse cerveja. O mesmo pingorante vai-com-jesus-e-o-carcará a incríveis R$ 0,10. Salgados tipo cantina de colégio. Pedrinho, o Orc, não passou no teste de cardápio do evento. Bandas, muitas bandas. Dois dias de festa. Todas com o selo de qualidade Birita. A mesmice divertida de sempre. Amigos por ali, histórias engraçadas, chapação. Com certeza, um dos eventos mais bacanas da cidade. A fórmula gasta só demonstra que funcionou bem, por uma década inteira. A vizinhança da Nova Suíça nunca mais será a mesma sem o Birita Rock Atitude. E como foi bom descobrir que na distribuidora de bebidas bem próxima havia Heineken gelada. Melhor ainda foi fechar a noite entupindo-me de caldo no Setor Aeroporto em excelente companhia. Não julgo os caldos, pois meu paladar saiu correndo na terceira ou quarta Heineken horas antes. Minha língua já estava grossa: a coitada da Itaipava Premium que tomamos no bar dos caldos não me disse nada. Os amigos, com todo o pacote de atrativos e repulsivos que trazem juntos, ainda são a melhor coisa que se tem na vida. Tá, soou piegas mesmo. Afinal, já está patente minha falta de inspiração para esta postagem. Quando será que estarei livre completamente dos últimos sinais desta maldita depressão?

Sobre a música na noite do quintal de Fabiano? O tempo parou, há anos, em Goiânia. Não sei lhe dizer se isso é bom ou ruim. Ontem colou, não sei até quando comigo.

12 de julho de 2010

A Velha Guarda na ativa: Underground Forces e Mortuário no fim de semana.

A Copa do Mundo não me empolgou mais depois das derrotas do Brasil para a Holanda nas quartas, e da Alemanha para a Espanha, na semifinal. Esta última eu considero a maior injustiça do campeonato. Na minha opinião de torcedor, ganhou o caneco uma seleção de futebol medíocre, que em momento algum despertou brilho neste olhar aqui. Sim, está certo que o futebol alemão nunca foi técnico e bonito, mas é de longe a melhor aplicação tática do mundo, e isso é gostoso de ver. Acrescento que, nesta Copa, eles ainda contaram com talentos individuais que trouxeram leveza ao jogo deles. Algo que faltou aos montes do lado verde-amarelo. Dunga e seus selecionados foram longe até demais frente ao futebol pobre, medroso e burocrático que jogaram. E essa é a graça do futebol: nem sempre ganha quem a gente quer. Quando me lembrei do jogo final, passavam 30 minutos do primeiro tempo. E tamanha foi a modorra que ele me proporcionou, que preferi rever pela milésima vez um episódio de Law & Order, temporada 2009. Muito mais interessante.

Na primeira parte do domingo de ressaca, procedemos a recuperação física pós-Underground Forces, no Old Stúdio. Puta evento massa na nova casa do Marcelão. O underground goianiense passou todo ali, e se há alguém que pode narrar parte considerável desta história, é aquele polaco gente fina. Torço aqui para que vingue esse novo espaço. Natal e Segundo estiveram na retaguarda do evento, que contou com All Torment, Old Place, Golpe de Foice e Tirei Zero no “palco”. Não tinha cara de “show”, na acepção da palavra (envolvendo uma produção, voltada ao público, interessada em retorno, enfim...). O lance foi algo semelhante à uma festa de amigos e chegados. Ou as “duas coisas”, como diria Chiquinha Maria Antonieta de las Nieves.

Comprei dois novos discos na banca da Two Beers, que marcava presença lá no Old Stúdio. Lançamentos goianos, ambos: O EP independente da banda de Formosa, Golpe de Foice, intitulado “Câncer da Terra”, que havia sido recomendada dantes. E a patada da capital – Mortuário, “Vidro na Cara”, lançado pelo selo dono da banquinha. Ao assistir a apresentação dos moços de Formosa, as referências imediatas são do mais puro grind core. Você se lembra de Disrupt, Extreme Noise Terror, Napalm Death das antigas. E se você é apreciador de boas canções do gênero, assim como este aqui que segura a pena do lado oposto do monitor, entendeu que é coisa fina de se ver/ouvir. O fôlego do baterista é irritante para alguém que, assim como eu, mal consegue subir as escadas do prédio onde mora. Sobre o disquinho, gravação caseira de boa qualidade, projeto gráfico pouco audacioso que muito lembra as demo tapes dos anos 80 e 90, tudo em preto e branco. Temas recorrentes ao universo punk hardcore em letras que primam pela simplicidade. Mensagens diretas: condenação de emos (parênteses para deixar aqui meu estranhamento com a letra, por ser pobre, preconceituosa e incitar a violência gratuita), anticlericalismo, degeneração da raça humana, crítica à politicagem, anarquismo e “canibalismo social”. Seis sons próprios e um “cover” de Extreme Noise Terror. Riffs e bases rápidas bem sacadas. Eu sei que vou ouvir mais vezes, apesar dos pesares. Meus anos de radicalismo ficaram pra trás, mesmo eu não sabendo se isso é de todo bom ou ruim.

Eu assisti aos shows de metal. Aliás, a idéia era essa por parte dos organizadores: tentar promover a famigerada “união” da galera hardcore punk com metaleiros (nossa, me senti nos anos 80 usando esses rótulos! he, he, he...). Se vai dar certo, eu não sei. É esforço antigo. Veremos. Gostei do All Torment, achei bacana. O Old Place teve sua audição prejudicada pelos beborríveis presentes, que não me deixaram sacar direito a banda. Pena, pois eu estava muito interessado em conhecer. Farofeiros de Goiânia, uni-vos!

Deixamos o evento após o show do Tirei Zero, banda da qual faço parte, tocando guitarra. Cansados, minha esposa e eu. Dali, apeamos no “nosso” bar, tomamos uma breja e um caldo. Caldo de fim de noite é sagrado para garantir o dia seguinte. Taí uma dica para os iniciantes na carreira etílica.

Recuperados do rolê no dia seguinte, ficamos em casa mesmo. Uma boa carne frita, coxão mole limpo de gordura, fatiado em tiras. “Nosso” açougueiro não cobra a limpeza, pesando a carne sem a gordura. Já vi alguns que só eliminam totalmente a manteiga após pesarem a peça. Fique esperto, pois isso é ilegal. Bem acebolada, com muito alho, uma pequena e charmosa dose de pimenta do reino. E nós gostamos de shoyu, apenas para aplacar parte do possível azedume da cebola. Pouco também, algumas gotas. Escolher bem a “matéria-prima” é o único truque para comer bem. Carne fresca, limpa e bem temperada, cortada respeitando a disposição das fibras, frita em bom azeite. Sucesso.

A Bohemia de hoje não é a mesma de 15 anos atrás. Você, eu e as pedras de Pirenópolis sabemos disso. Não sei exatamente quando isso ocorreu. Mas está cada vez menos interessante pagar mais por um produto que já não tem o diferencial frente aos demais similares no mercado. O lúpulo que dava o sabor característico à marca está menos proeminente. E venho observando esta queda qualitativa não só na pilsen que tomei neste domingo. Desonesto, desestimulante. Até mesmo o aroma foi prejudicado. Há uma década, identificava-se Bohemia pelo olfato. Acredite, jovem bebedor.

Mesmo assim, no copo próprio, que se encontra em muitos lugares por aí, a espuma continua cremosa. Das pilsens nacionais de larga escala, é de longe a melhor e mais saborosa. E ainda combina com a nossa carne frita. E serviu para regar a audiência do disco do Mortuário. Bolachinha na bandeja do toca CD, Dri na cama para uma soneca pós-almoço. Pra ela, é pedir demais. Tímpanos sensíveis.

Ao abrir a caixinha, tem-se um projeto gráfico legal, que pretende acompanhar a proposta do trabalho da banda. Discreto e obscuro o encarte. Evoca-se sangue, barulho, confusão mental, referências políticas. Porco e Bush: par bem casado. Linkado com o som de abertura do disco, “Bagdah”. Excelente introdução temática, com uma produção dando ênfase ao peso do som: guitarras cruas saltam aos ouvidos. Riffs rápidos e solos bem montados. “Boca Suja” vem com um riff muito foda de introdução também, continuando o tom da primeira música, numa levada death metal. O vocal do Aurélio é assustador durante todo o disco. Daqui do alto da prepotência do meu gosto musical, eu não gostei das intervenções de vocal do Foca, assim como eu não gosto ao vivo. “Vidro na cara” trás uma introdução massa assim como as duas primeiras, old school mesmo. Há um riff no meio da música que lembra Sepultura do Arise ou Beneath the Remains. E meu medo é que isso não soe como elogio, vai saber, né? A porradaria agressiva, suja, descrente de inúmeros valores sociais, continua em “O Seu Pior”. Tenho receio em sair carimbando trabalhos alheios com rótulos indesejáveis, mas o lance é mesmo um death metal com pitadas de hardcore metal. Pesado e consistente. O tímpano fica completamente preenchido o tempo todo.


A partir de “Camburão Negão”, passando por “Barriga” e indo até “Porcaria”, percebemos uma queda de fôlego, de inovação. Os sons ficam menos elaborados, mais crus. Tem-se a impressão de que os três sons são na verdade um só. Talvez (e põe talvez nisso, pois aqui neste blog o lance gira em torno do achismo mesmo...) falte tons diferentes de música para música. Os riffs são bem trabalhados, rápidos, mas em certo ponto enjoam.

A retomada veio em “Mendigo”. Solos que lembram muito, mas muito mesmo bandas thrash metal oitentistas. “Pinga no Garrafão” (com uma homenagem ao lendário Marcão) e “Verme” encerram o festival de sarcasmos, ironias e descrença com convenções sociais que são destilados neste disco. Bem pensadas para o final, trazem elementos que espantam de vez a pequena monotonia do meio do trabalho. O “gran finale”, com um arranjo bonito de percussão, ficou diferente, minimalista diria eu, he, he, he...

E é lógico que meu leitor sabe que impressões pessoais são deveras diferentes de resenha ou crítica profissional. Compre, ouça e depois me diga você o que percebeu.
Errei na mão ao calcular a quantidade de carne que iríamos comer. Sobrou demais. Comida esquentada é uma lástima. Minha sorte é que já tenho começado o almoço de segunda-feira. Nada convidativo, eu sei. Mas é a realidade.




8 de julho de 2010

"Eles" não estavam lá...


Passei o 6 de julho ansioso. Finalizando médias de recuperação dos meus gênios, o último trabalho extra-sala deste professor antes das férias. E aguardando a apresentação de Renato Teixeira, no projeto de música do Flamboyant. A considerar, o desconforto que me causava o local onde o show iria acontecer. Não é nenhum tipo de recalque, ódio classista ou algo que o valha. Eu simplesmente não gosto de shopping center, só isso. Vale para todos. Havia anos, ao pé da letra, que eu não ia ao Flamboyant. Da última vez que estive lá, foi para ver o filme “Auto da Compadecida”, com minha ainda namorada, atual esposa.

Eu tenho uma estranha impressão de estar sobrando nestes lugares. Principalmente nos shoppings mais sofisticados. Não gosto de ser observado. E como não atualizo meu guarda-roupa com freqüência, digamos que destôo um pouco da paisagem, para não ser cruel comigo mesmo. Não gosto de multidão. É, eu sei, soa contraditório, mas é isso. E aquele cheiro bizonho específico dali, nem me fale. Ao final do dilema, vale a pena enfrentar o templo maior do Jardim Goiás se o prêmio for uma apresentação de Renato Teixeira.

Conheci o trabalho deste violeiro em casa, junto à família roceira que tenho. As raízes dos Lopes estão profundamente fincadas no Triângulo Mineiro e interior paulista. Desde sempre eu ouço as canções deste que considero um dos maiores compositores de música caipira do final do século XX.

Como não precisava comprar nada que superasse a quantia de R$ 150, não ganhei entradas para assistir à apresentação sentado. Assim era a promoção das lojas. Acompanhamos tudo em pé, do fundo do espaço em um dos estacionamentos. Mas antes de nos acomodarmos, um pequeno pavor ainda me agitava o âmago: e se ELES estiverem lá?

“Eles”? Eles e elas são ruidosos. Andam aos bandos, e as estirpes masculinas não se importam de colocar sua descendência em risco com calças jeans Smith Brothers estupidamente apertadas. Não há problema se já é noite para o uso de chapéu, afinal ele não serve para tampar os raios solares, e sim para ostentar etiquetas procedentes da Casa do Rodeio. As botas destes tipos humanos não têm nenhum resquício de poeira vermelha de terra, só mesmo aquela preta, de asfalto. Geralmente se deslocam em enormes caminhonetes ou utilitários, que nunca carregam produtos do campo, mas na maioria das vezes, equipamentos de som muito mais caros que meu carro. O dialeto “deles” inclui expressões idiomáticas como “tchê, tchê, tchê!!!” (gritado pelo grupo como demonstração de júbilo), e dezenas de outras mais, cristalizadas por uma cultura própria. “Eles e elas”: caubóis e cowgirls do asfalto. Arremedo do homem do campo brasileiro, que se apossaram da cultura caipira ilegitimamente. Se eles estivessem lá em grande número, eu desanimaria e provavelmente, volveria à casa. Eu realmente não sabia se a obra de Renato Teixeira já havia sido pasteurizada e enlatada em grandes escalas. Ora, Tonico e Tinoco, Pedro Bento e Zé da Estrada, Zé Fortuna e Pitangueira, e outros gênios mais, hoje não fazem a alegria dos “sertanejos universitários”? Eu temia que as canções que aprendi a admirar pela leveza, beleza, sinceridade, já tivessem sido transformadas em hinos da galera da fivela de prato.

Sim, fui preconceituoso. E daí? Não sou obrigado a ser isento aqui. Mas me enganei. Felizmente. Como fiquei aliviado ao perceber que “eles” não estavam lá. Nem ao menos um da espécie. Não ouvi nenhum versinho rimando morena com pequena, e ao fim um original “seguuuuuura peão!”. Ufa! Pude ouvir os dedos do músico “trastejando” no braço do violão. Pude ouvir a poesia caipira palavra por palavra. Cada canção, uma pequena homenagem à natureza, à simplicidade, à vida. Acompanhado por seus filhos (baixo e segundo violão/voz) e um baterista, desfilaram canções conhecidas de qualquer um que goste do gênero. Todos os clássicos do compositor, e de outros compositores igualmente importantes. Renato Teixeira continua preciso naquilo que quer transmitir, pois utiliza-se de sinceridade para falar através de sua música. Escreve sobre aquilo que vive/viveu, e por isso soa original e verdadeiro o tempo todo. Seu estilo introspectivo de se apresentar nos leva à intimidade com o cantor. Nada de agudos intermináveis “xonados” ou “marvados”. Apenas uma voz doce e na medida pra traduzir a alma do campo.

E ali mesmo, na sua apresentação curta de 1 hora cravada, eu entendi. Nenhum verso de duplo sentido. Nenhuma rima a ser substituída por equivalente chulo. Nenhum “segura”, ou “simbóra”, ou “aôôô”. Nenhuma “bandida”. Nenhuma canção de estrutura fácil, e sim vários acordes rebuscados. Arranjos de bateria e percussão originais, emulando sons do campo. É por isso que nenhum espécime “sertanejo universitário” estava lá. Confirmei uma antiga teoria minha: há música caipira de qualidade superior. Há vida inteligente fora das FM’s. Há sensibilidade ainda no universo dito “sertanejo”.

Talvez neste texto de hoje eu fale mais sozinho do que de costume. Já não tenho muitos leitores, ao abordar música caipira então... mas me senti na obrigação de escrever sobre uma noite em que o casal Alemão transcendeu. A apresentação de Renato Teixeira nos deixou muito felizes. E tratar da vulgarização da arte, mesmo em um patamar diferente daquele que vínhamos aqui abordando, sempre é bom. Alfinetar um universo alheio ao meu, sem a menor responsabilidade, é melhor ainda. Ah! O politicamente incorreto...

Ao final do show, precisávamos comer algo. Já passava das 8 da noite, estávamos famintos. A praça de alimentação de um shopping do porte do Flamboyant dispensa comentários óbvios. Preços estratosféricos, idem. Chamar um sanduíche, ou fritas e demais similares de fast-food ou junkie-food, é natural. Mas chamar churrasco disso? Não nos agüentamos, ficamos muito curiosos. Arrombo no bolso, aqui vamos nós. Dois bifes de picanha grelhados acompanhados de fritas sabor fast-food e legumes, grelhados. Saladinha de brinde. Carne é bom, no espeto da churrascaria é melhor, e em casa é o ideal. Grelhar berinjela e abobrinha? Parabéns pela originalidade, que se mostrou desastrosa. Pelo preço que pagamos no nosso “jantar”, comeríamos em uma churrascaria concorrente carne de verdade. Lição aprendida. Churrasco não pode ser “Express”, senão seu dinheiro vai embora sem lhe proporcionar o prazer esperado. Chopp Brahma é sempre gostoso, se tomarmos como referencial o mundo mortal. Lá, o preço não me assustou, apesar de considerá-lo alto. Maior que no quiosque da marca. Não estou aqui pra dizer que a comida estava ruim. Não sou hipócrita. Mas tenho o dever de bom cidadão em lhe alertar que por preços similares você come melhor, com mais conforto e com bem menos emos por metro quadrado. E não há nada lá que supere qualquer outra casa de fast-food. Não há motivos para que regressemos.

Mesmo após o jantar, a música de Renato Teixeira ecoava fundo na alma. Aqueles versos desconcertantes, de tão simples e belos, encaixados em melodias inteligentes que fogem aos clichês, são uma fórmula que explica o pouco apelo comercial do compositor. E não é o caso de ouvir sua música só porque é “cool” gostar de algo assim, under. Eu gosto de um caminhão de coisas do mainstream. Apreciar a obra deste paulista do interior é como voltar no tempo e ouvir aquelas cantigas que a vovó cantava na beira do tanque. É como ouvir as músicas que o vovô assoviava baixinho esperando o piau beliscar. É reconfortante. Uma impressão que poucos ainda têm. E eu sou imensamente grato de ser um destes.

13 de junho de 2010

Quanto vale o Dia dos Namorados?

Foi interessante ver o shopping na tarde deste último sábado. Trabalho em um colégio que funciona no subsolo de um desses templos do “ter é ser”, a atual religião que arrebanha mais e mais fiéis na elástica classe média brasileira. Centenas e centenas à procura do mimo para a alma gêmea. Estacionamento lotado, cheguei 5 minutos atrasado à sala de aula porque não consegui uma vaga próxima. Dia dos namorados. É isso.

No clima de romance e pra não deixar a chama fraquejar, depois de 2 anos e meio de matrimônio, convidei meu broto para um programa que prometia aquecer os corações vacilantes nesta data tão especial: Baile dos Solteiros, Capim Pub. Animando o ambiente, segundo o e-flyer, Ultravespa, Black Queen, Johnny Suxxx & The Fucking Boys e a banda que embala sonhos de tórridas paixões: Os Canalhas, mais canalhas do que nunca com seu acústico bem-te-vi. Digo segundo o e-flyer porque devido ao horário de trabalho de minha esposa, só chegamos às oito e pouco, após o início das apresentações. Não sei ao certo quem tocava quando entramos: Ultravespa ou Black Queen. Sei que era bom demais, a ponto de eu me dirigir ao baixista deles e mencionar minha felicidade ao ouvi-los, coisa que pela minha timidez patológica, eu raramente faço. O moleque é deveras competente.

Pelo erro de chegar mais tarde, confiando no fuso-horário Goiânia Rock City, sempre 4 horas atrás do horário oficial de Brasília, nos demos mal. Melhor, pagamos caro. Literalmente. Uma pequena fortuna, considerando-se o espaço: 10 paus por cabeça. O velho Capim Pub mudou muito pouco desde que abriu para a música alternativa. A estrutura continua adequada apenas para algumas propostas de eventos. E no nosso humilde entender, não suporta coisas minimamente sofisticadas. Em suma, é tosco. É bom estar lá, mas não é legal ter que segurar a porta do banheiro para usá-lo. Não é legal beber cerveja morna a extorsivos 3 mangos, com a lata fedida. Não é legal não haver conforto para sentar e beber. Mas ainda assim, conta com minha presença em intervalos regulares de tempo. Por que? De certa maneira, essas faltas têm seu charme. E desta vez, havia marcas além da detestável, insuportável e degradante Nova Schin. Bebi 3 Antarcticas. Repito, mornas.

Um excelente público para os shows. Pensando que ainda chegariam mais pessoas para a festa após as bandas, arrisco-me a dizer que o evento foi um suce$$o. Tinha muito tempo que eu não via Johnny Suxxx. Gostei de novo. Não havia as plumas e paetês como da última vez em que os vi, dando aquele toque de escracho próprio deles, mas os senti empolgados tocando. E sabemos que isso vaza ao público. Acaba contagiando. Na segunda música eu já estava batendo o pé, marcando o ritmo. Eu precisava ouvir algo diferente neste dia. De tempos em tempos, saturo-me de hardcore e punk.

Escrevi o segundo parágrafo deste texto completamente influenciado pela proposta desconfortante d’Os Canalhas. Interessante, eu me lembrei do Fat Mike e seu palhaço alter ego ao estar presente em mais uma apresentação da mais pura canalhice pequizeira. A banda estava desfalcada. Ainda não os vi com as backing vocals. E o front man, Wander Segundo, continua com sua voz aveludada.

A proposta da banda é interessante, é inteligente, é instigante. O problema é ter estômago para agüentar Segundo, o “vocalista” da banda, cantando. E de terno. O problema é ter de castigar os tímpanos com o violão desafinado da banda, tampado por uma guitarra que tocava de tudo, menos a música em execução. Não saquei mesmo se era intencional, ou se o guitarrista se perdia. Fato é que eram dois universos paralelos. Repertório digno do “Cantinho do Coração”, programa das madrugas nas FM’s, com aqueles locutores que mandam recados sussurrados do tipo: “- alô, Graziellen! Me liga, to te esperando! Beijo, do seu Wescleynalton”. Ou aqueles programas em que o som rola e o locutor, com voz de disk-sexo, traduz simultaneamente a letra melosa. Infelizmente, o tempo estourou e tivemos que ir embora antes do fim da apresentação. Infelizmente? Bem...

Sei que ao cruzar o portão de saída, meu coração apertou ao lembrar do valor pago para ali entrar. Ou seja, custo-benefício prejudicado na minha conta. Dez paus já valeram mais na cena goianiense. É certo que houve a festa posterior (procede, não é mesmo?), e não a aproveitei. Mas assim mesmo, continua caro. Não pretendo pagar esta dezena de merrecas tão cedo pra ir ao Capim Pub. O meu senso moral me diz que mais de 5 dinheiros é ultrajante, em se tratando do que é oferecido ali. As bandas que estiveram no palco, cada uma com sua proposta, são excelentes e o valem. Não havia nenhuma “verde” na escalação. O meu chororô se refere à casa, e não ao espetáculo.

Dali, seguimos para nosso bar de estimação. Todo mundo que gosta de bar, tem algum que guarda no lado esquerdo do peito. Eu já fui ao antigo Bar da 3, e detestei a experiência. Me lembro de poucos lugares tão ruins. E há pessoas que idolatravam o lugar. Acontece. Já saí de casa para pagar 5 reais em uma cerveja, e recebi um copo americano sujo para consumi-la, depois de apodrecer uma hora na fila. As pessoas que estavam comigo não se importaram, e tiraram muitas fotos para seus álbuns de orkut. Afinal, estiveram ali, naquele bar da moda. Quer porcaria maior que aquele antigo Praia? Então.

Gosto de ser conhecido e chamado pelo nome no bar onde bebo. Gosto de receber tudo muito limpo e decente. De pagar um preço justo por aquilo que como e bebo. De ter conforto, mesmo sendo nas cadeiras de plástico da Skol. E principalmente, de ter o mesmo serviço, se não melhor, que os bares badalados do Bueno e Marista, em frente ao meu prédio. Esse ponto encerra com chave de ouro meu score.

Uma bela e bem servida panelinha de lingüiça caseira, muito bem executada. Simples, despretensiosa, com gosto de comida de mãe. Arroz, lingüiça, tempero à pampa e só. E Antarctica por modestos R$ 3,20. Gelada ao ponto. A noite só começou. O disco de estréia do The Kooks (Inside In Inside Out, de 2006) nos aguardava na vitrola, após o jantar. Um espumante nacional vagabundo já estava na geladeira desde o fim da tarde. O resto é história.

9 de fevereiro de 2010

Sábado de fast-food no Martin Cererê: Covernation 2010.

Eu era sempre um dos primeiros a bradar contra eventos de covers. Eu era intransigentemente contra ocupar espaços culturais com embustes e micagens dos ídolos do mainstream, já que é tão difícil conseguir tais espaços.
Eu era.
Sábado 6 último eu mudei minha opinião parcialmente: estive no Covernation. Saquei que aquilo é muita diversão em um lugar só. O evento mobiliza a cidade, ou pelo menos parte dela. A gurizada vai à estratosfera da felicidade. O Martin Cererê lota. É sem dúvida um dos grandes eventos de rock do calendário goianiense.
Eu explico minha implicância com bandas/eventos covers: nada é produzido, tudo é copiado. É a reprodução de algo às vezes já pasteurizado pela grande mídia de rock. É enfadonho porque não há surpresas, sabe-se exatamente o que vai acontecer.
A salva-guarda do festival em questão foi exigir das bandas inscritas trabalho autoral. Achei isso bacana da parte do idealizador, Richard Ferreira. Assim, evitou-se a principal crítica que este tipo de festival suscita: tirar a vez de quem rala tentando criar seu próprio trabalho.
Por outro lado, o estigma de cidade que gosta mais de covers do que de suas próprias “crias” continua: o Covernation leva mais público do que 80% dos festivais ao Martin Cererê. Dentre n outros fatores, justamente porque a rapaziada público-alvo sabe que só vai ouvir seus heróis de MTV. Ou outros clássicos não tão conhecidos do grande público televisivo, mais ultra-sacados no mundo dito alternativo. Em suma, ainda é um festival de covers, imitações, algumas bem baratas, e isso não se pode apagar.
Volto a dizer: me diverti pacas. Poguei, gritei, subi ao palco e cantei um som inteiro do Cólera, na fodástica apresentação do Sangue Seco, topei vários camaradas das antigas e das novas, poderia ter juntado uma turma toda de alunos lá dentro (uns 20 no mínimo), enfim. Ainda assim, não saía da minha cabeça a pergunta que não consigo responder: por que o público goianiense tem esse fascínio tão grande por projetos covers? Talvez eu finja não saber a resposta, pois assim fica mais cômodo raciocinar. Talvez. Um dia a gente volta aqui, certamente.
Chegamos por volta das 4. Pelas histórias a mim relatadas, eu esperava encontrar uma fila e quem sabe até não conseguir encontrar ingressos promocionais a 5 reais. Ledo engano: tudo tranqüilo e sossegado, ingressos na mão e um estranhamento inicial – Martin vazio. No folclore do Covernation constava pontualidade, e isso não demorou muito para ficar só no mito mesmo. Atrasos em eventos de rock são parte de um culto poderoso, indestrutível. Fiquei feliz pelo pouco atraso, e isso já é um começo.
Aos poucos, o lugar foi enchendo das mais variadas espécimes da fauna roqueira. Fico realmente impressionado como essa rapaziada de agora tem disposição para “tunar” a aparência: tatuagens, piercings, cabelos coloridos por mais cores do que eu imaginava existir. Um festival de excentricidades. A molecada ainda quer chocar, é fato.
Sábado de sol goiano, sempre acima dos 30°C. Adrielle e eu merecíamos uma cerveja gelada. Li em algum lugar que o bar seria terceirizado. Algo sobre a Fósforo assumir. É comum eventos patrocinados oferecerem somente uma marca de cerveja, mesmo sendo uma de muitas de uma mesma multinacional. Sinceramente, não sei se foi o caso do Covernation. Fato é que só havia uma marca disponível: Skol. Sabemos da facilidade que isso pode oferecer para trabalhar com caixa, ao padronizar valores. Porém, no quesito agrado ao público, isso pode ser um desastre. Ao comprar cerveja ouvia um ou outro reclamar sua marca favorita, não presente no bar. O vício do povo brasileiro por filas é algo hilário: em frente ao caixa perfilavam-se 20 pessoas, enquanto no guichê de entrada do Martin comprei minhas fichas de água e cerveja sem ninguém a minha frente.
Minha primeira lata acredito ter saído diretamente do pacote, passado por um espanador de poeira e servida a mim. Quente. Nem fria. E choca. Não acredita? Pois eu vou repetir pra quem mais quiser ler isso aqui: choca. Entendo que contensão de gastos é importante. Entendo que sobrar cerveja em um evento já ocorrido acontece. Mas daí a ser servida pra mim, e qualquer outro consumidor desavisado, peralá. Chega a ser insultante o staff do bar imaginar que um consumidor regular de cerveja não reconheça um produto deteriorado.
Começo com pé esquerdo. Mas cara, era sábado. E nesse eu ainda não trabalhava. Precisava de muita coisa pra derrubar meu humor. E ao entrar pra ver o Ultravespa mandar um Cascavelletes, banda que realmente eu não me interesso, tudo voltou a ser ensolarado. Puta show legal de se ver. Gosto muito quando se vê a alegria no rosto do músico no palco. Levei o show como se os sons fossem deles. Facilitou eu não me lembrar de muita coisa da banda homenageada. Ainda bem.
A segunda cerveja deve ter ficado uns 10 minutos no freezer. Estava fria. No terceiro gole já havia se igualado à primeira. E isso por extorsivos 3 reais. Um verdadeiro absurdo, incompreensível. Não tive coragem de bancar o consumidor consciente frente à simpatia dos atendentes. A terceira lata eu pedi que fosse trocada. Duas vezes. E não adiantou. Continuei recebendo latas de cerveja frias, nada convidativas. Junta-se a isso o fato isolado de eu não ter a Skol na lista das mais. Sim, essa parte de bar fudeu mesmo.
Fui seletivo quanto aos shows. Só experimentei algo diferente vendo o Ultravespa. Estava ansioso para ver os Engravatados mandando sons da única banda que me empolga na geração 80 do rock brasileiro: Ultraje a Rigor. E acredite: foi um puta espetáculo! A banda é deveras competente, executou as músicas com maestria. Coisa bonita de se ver. A energia contagiou o público, que começou a se soltar no pit. Todos os clássicos, músicas cantadas em coro com a moçada.
Minha fome teve vergonha de prosseguir a aporrinhação quando ela soube do preço do cachorro-quente: 3 reais e 50 centavos. A única iguaria comestível no ambiente. Me parecia um bom bate-entope: muito condimento, recheio generoso. Tamanho diminuto, porém, para a pequena fortuna cobrada por ele. Quem é assíduo freqüentador de pit-dogs sabe do que estou falando.
Precisava sair do Martin para esperar amigos que haviam combinado de aparecer no evento. Ponto de referência: Praça Cívica, posto. Esperando e me deliciando com Heineken gelada por modestos R$2,70. Isso sim. Deixa eu destacar de novo uma parte importante: gelada. E Heineken. Numa loja de conveniência, que ganha horrores no preço final da cerva. Aproveitei a deixa: tomamos 4 verdinhas.
Quando de volta ao Martin, eu ouvi o Sangue Seco conclamando as hordas hardcoreanas com golpes brutais nos tons da batera, dando início à “Medo”, hino do Cólera. Eu disse a mim mesmo: meu sábado de diversão começou. O repertório perfeito, a energia pulsando do palco (mesmo com o Eduardo Inimigo, vocalista, insistindo no discurso “somos velhos e blá, blá, blá”), a interpretação seca e violenta, virulenta da banda – eu fotografava, eu cantava, eu pogava. Eu não, nós. O teatro inteiro. No pit, a ritualística roda se abre: a molecada dava mostras do que o rock é capaz, onde ele vai além das demais estéticas musicais.
Fim do show, camisa bege do Cólera empapuçada de suor, a Kodakizinha com pilhas fracas e fotos beirando o ridículo. Não adiantava regular o flash. Não havia mais força nas pilhas para tanto. Outra Skol pra ratear o calor? Não, obrigado. Meu bolso, meu paladar e minha vergonha na cara agradecem.
Eu vejo os Ramones como um rito de iniciação: a coisa toda tem de começar ali. One, two, three, four é básico. Deveria ser matéria escolar. Os Bizarrones fizeram jus a esta minha posição. Dizer que se ateram aos clássicos seria ingenuidade: há como fazer um show só de clássicos de mais de 2 horas. Você, eu e as pedras de Pirenópolis sabemos disso. Uma verdadeira avalanche de hits. Muitas fases da banda sendo abordadas. Show incrível. Cantei muito. Não nos microfones, super disputados pelo público. Moshs insanos, pois a segurança passou a aliviar a barra. Festa bonita de se ver.
Tirei um dia pro fast-food. O Covernation é um espetáculo que, para o público comum, como eu, é bem organizado, em comparação com outras experiências por aí. Mas é fast-food. Enlatado. É a celebração do trabalho alheio, no caso da música que eu ouvi por lá. É hiper-divertido, agrega público que dificilmente cola em outros eventos, movimenta a cena. Mas tem contra si a atitude de incentivar o trabalho não autoral, mesmo com a exigência de que só participassem bandas autorais. O público presente reafirma seu gosto pela produção artística não-autônoma. Isso é “cultural” por aqui.
Fast-food: é uma delícia na hora. Deixe 10 minutos ao relento e você terá comida cancerígena, dizem uns. Muito boa pedida de vez em quando. Você come, satisfaz a necessidade de gordura saturada e açúcar e por dias, seu cérebro fica feliz. Com música também é assim. Cover de vez em quando é muito legal, vi isso de perto. Mas se rola sempre, enjoa. Dá câncer na cena local. É prato de consumo rápido e esporádico. Se eu pudesse recomendar algo, eu diria que um evento desse tipo por ano é a pedida. A julgar pelo público que ele arrastou para o Martin neste sábado, penso que alguns produtores não estão interessados em deixar esse filão pra lá. Richard terá concorrentes em breve, eu sei.
Após o show dos Bizarrones, Dri e eu nos demovemos. Precisávamos comer algo, e em nenhum momento nos sentimos atraídos pelo cachorro-quente, a ponto de ir contra nossos instintos e desembolsar R$3,50. Há um bom bar em frente ao nosso prédio, que serve uma senhora porção de filé de frango grelhado por 15 lascas. E Brahma 600 ml noiva por 3.
Tenha certeza: no próximo Covernation eu estarei lá. Não sei se com o blog, mas estarei. De vez em quando, comer fast-food é bom para a alegria.
Veja aqui algumas fotos legais, outras nem tanto:
Não tive tempo hábil de editá-las. Prato cheio, hein? Divirta-se!

20 de julho de 2009

Rolê pelo melhor preço: de graça. Cocktail Molotov no DCE.

O rolê do Rango Rock desta segunda-feira trás uma novidade: um colaborador especial. Bacural, meu amigo de longa data, narrará o que foi, para ele, o Cocktail Molotov, gig que rolou no DCE na sexta 17. Eu estive na parada, mas não trabalhando. Só curti mesmo, he he he...
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Ademais, este é o último "número" antes de uma reformulação gráfica pela qual o blog irá passar. Teremos nova logo, nova apresentação, mas a proposta será mantida. Esse rolê também marca um "tempo" que iremos proporcionar à cena hardcore. Nos próximos, visitaremos outras paragens roqueiras por aí. Novo número só em agosto.
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Para despertar a ansiedade de alguns (poucos) leitores, no sábado deixei oito K-7's para serem digitalizadas. Nenhuma delas tem menos de oito anos. Você gosta de CFC? Rat Salad? Desordem Progressiva? Choice? Psico&Ataq? Aguarde.
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Ah! ESTE BLOG ENTROU DE FÉRIAS. Escrevo tudo isso numa parada estratégica aqui em Anápolis. Seguiremos viagem amanhã, para o Tocantins. Há 50 caixas de cerveja na bagagem. Barata e boa, nossa amiga Brahminha.
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Chega de blá, blá, blá. Bacuras, companheiro de fé, dizaê como foi esse rolê:
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COCKTAIL MOLOTOV 17/07 COM MACACOS GORDOS, ANESTHESIA BRAIN, CORJA, NIEU DIEU NIEU MAITRE (CURITIBA), SEÑORES E SIEMPRE LOKO. DCE- UFG

Sexta feira 17 de julho, Goiânia, férias escolares. O que fazer nessa capital, se você não foi para o Araguaia? Ir para um show underground? Sim, isso mesmo, mas não seria um show qualquer. Esse seria um dos mais impressionantes shows que já vi nessa minha pobre vida de rockeiro trintão, começando pelo nome do evento: COCKTAIL MOLOTOV. Agressão iniciada pelo nome do evento.

O local: O DCE-UFG, ou melhor, um anexo do DCE-UFG (vou chamar o local de INFERNIN), um local que, mal cabiam 25/30 pessoas lá dentro! Aparelhagem? Três cubos, sendo um da marca Framm, uma bateria que tinha como suporte para não deixá-la movimentar um pneu de carro (você não está entendendo errado não!), um microfone, pedestal de microfone – uma vassoura – e a iluminação feita por um refletor que se apagava a todo o momento.

Você deve estar pensando: deve ter sido uma desgraça, ainda bem que eu não fui! Pois bem meu amigo, se você não foi você perdeu, sabe por quê? Vamos por partes...

Primeiramente a força de vontade do organizador, o Sr. Burns, que não é dos Simpsons e não tem nenhuma grana, sua força de vontade foi imensa ao fazer o evento totalmente DO IT YOURSELF ATÉ O OSSO! Foi de graça, sem nenhum flyer, sem nenhuma segurança, sem bar (quem queria bebidas, tinha que andar um pouco ate o bar mais próximo) e comida vegana, apenas com o espírito de fazer algo acontecer. Parabéns!

Por isso notou-se que no público – acredito que somando todos que estavam no evento deu mais de 150 pessoas no local – havia a moçada do hardcore, crust, punks, metaleiros, skaters uma miscelânea cultural, ou seria contra cultural? Não interessa, até agora tudo transcorria bem...

A primeira banda a tocar foi o MACACOS GORDOS de Inhumas, banda que entrou na programação por iniciativa do publico que pediu o show deles pela internet. Os caras tocaram um set de mais ou menos uns 30 minutos. Apesar do público esta frio ainda, agitaram bastante com seu som meio HC/punk com umas pitadas de rock nervoso.

A segunda banda a tocar foi o ANESTHESIA BRAIN, na qual essa pessoa que escreve é o “cantor”. Pense você uma banda com mais de 14 anos de existência, quase todos já tem mais de 30 anos e querer tocar musica rápida, o que pode sair? Pois bem, me surpreendeu, a aparelhagem apesar de precária segurou todo o som – o vocal que tava sumido, mas tudo bem – e o publico agitou de forma insana, louca, animal!!! Lindo. Fazia tempo que não via um show tão insano na vida.

Logo depois veio o CORJA, ou seria a CORJA? Segundo, Camboja e Daniel, o Power Trio. Fizeram um set com musicas bem variáveis, com um suporte de microfone que inicialmente tinha um cara que segurava para o Segundo cantar e depois fizeram uma “gambiarra” com uma vassoura... uma vassoura!!! Tem que comentar mais alguma coisa depois disso?

Logo após veio a atração da noite. Com dois membros de SP e os outros dois de Curitiba, sobe ao palco o NIEU DIEU NIEU MAITRE. Nem sei como definir o som dos caras, seria algo como Finlândia anos 80, com atitude Black Flag e o anarquismo do Los Crudos – não entendeu? Que pena, então perdeu o melhor show que Goiânia viu até agora em 2009 – com discursos anarquistas, antisexismo (com destaque para o vocal que ficou totalmente pelado e ainda enfiou uma baqueta no ânus, e a garota da guitarra com os seios de fora, como forma de protesto) e o público que estava possuído pelo cão. Foi um tapa na cara da sociedade conformista, conservadora, judaico-cristã. Um show que fez muita gente ter que usar a massa encefálica, ou simplesmente cérebro.

Mas foi tudo alegria? Infelizmente não...

A desgraça faz parte das ações humanas, então vou pontuar o que houve de ruim no evento...

Primeiro, um dos caras que mais faz pela cena independente de Goiânia, na semana do seu aniversário, o Segundo, teve sua banca com os CDs ROUBADOS, isso mesmo, roubados!

Logo depois, inicio de confusão no show do N.D.N.M. Não pude ver o que realmente tava acontecendo porque tava de roadie dos caras da banda.

Para piorar a situação as bandas SEÑORES e SIEMPRE LOKO não tocaram, sabe por quê? Ameaçaram o organizador, o Sr. Burns, dizendo a ele que iriam quebrar os cubos de som da aparelhagem. Eu gostaria de saber quem foi que o ameaçou dizendo isso a ele. Mas imagino quem deve ter sido...

Será que os responsáveis (ou melhor, irresponsáveis) por esses fatos estão felizes agora? Será que teremos novas iniciativas por parte do Sr. Burns? Qual será a impressão que os caras que rodaram milhares de kilômetros para tocar aqui vão ter da nossa “Goiânia Rock City”? Sinto-me envergonhado depois do fato ocorrido...

Mas não desisto jamais.

Termino ao som de Dead Kennedys : Nazi punks, fuck off.

10 de julho de 2009

One, two, three, four! CJ Ramone no Bolshoi Pub




Feliz é a palavra.
É assim que eu fico quando o rock me presenteia como ontem. Sensação de alegria, vontade de confraternizar, de pular num pé só, vontade de beber muita cerveja, de conversar até amanhecer com os amigos. Sobre os Ramones, é claro. Vontade de acordar a esposa às 3 da manhã e contar em detalhes como foi (e isso eu não fiquei só na vontade não, coitada). Feliz igual moleque em dia de festinha de aniversário. Igual quando o Atlético Goianiense foi campeão.
Arrombei meu orçamento. Fodi minha viagem de julho. E daí? Matei parte da minha frustração de não ter visto os Ramones ao vivo. Eu só tinha 16 anos e nenhuma possibilidade de ir pra Sampa em 1996, quando os novaiorquinos estiveram aqui pela última vez. Não por coincidência, ninguém da BCL representou os roqueiros da quebrada por lá, he he he! Éramos uma “crew” que não viajava muito, e você deve imaginar porquê. Acompanhamos tudo, pelos jornais e pela Rock Brigade.
Aviso a você que heroicamente chegou até essa linha do texto: isso não pretende ser uma resenha. Eu não sou um profissional do assunto, não estudei nada para isso. O que daqui para frente você lerá, se tiver paciência, é um relato pessoal de como o rock deixa um trintão feliz da vida.
Decidi ir à apresentação de CJ Ramone no Bolshoi em cima da hora, e por esse erro paguei $10 pratas a mais que muita gente. A dupla que compõe a equipe deste blog estava desfalcada de seu elemento feminino, então o rombo pelas entradas foi menor que o esperado. Eu comentarei sobre o óbvio: o Bolshoi é de longe a melhor casa que abre espaço para o rock em Goiânia, em diversos aspectos. O serviço pecou um pouco na agilidade, mas não bebi cerveja quente. O banheiro é um pouco diminuto, mas segurou a onda dentro do padrão da dignidade. Os preços da casa, velhos conhecidos de reclamões inveterados, como esse que digita aqui, são exorbitantes. Sabemos o motivo técnico para o negócio: selecionar público. E conseguem. Há pessoas em Goiânia que não se importam em pagar R$4,80 em uma cerveja long neck que custa R$2,00 no mundo real. Ou R$160 em uma garrafa de uísque nacional mediano, que em outras paragens não passa de 60 mangos. Mas se a intenção é reservar o espaço a uma parcela dos rockers pequizeiros, então eles pagam sorrindo. Não contavam com a audácia do populacho, que ontem compareceu em bom número. A ocasião pedia.
Um cardápio variado, de pratos quentes, saladas, comidinhas de boteco e amenidades. Ampla variedade de marcas das melhores cervejas européias e estadunidenses. Se você pertencer àqueles 10% situados entre a letra A e B do IBGE, é prato cheio pra entrar com a cara, ops!, rosto virado pra trás.
Uma falta que percebemos foi o reduzido estoque de Heineken 600ml. Pedimos 4, gostaríamos de ter pedido mais. Essa, oferecida a R$ 7, é a grande sacada para você, companheiro de choradeira classista, ilustre figurante no bolão C do IBGE. Após o garçom informar-nos que a garrafa de 600ml não estava mais disponível, apelamos para as long necks.
MAS E O SHOW? Ah, foi uma aula, não um show! Vamos deixar os lugares comuns pra outra hora, por favor. Vamos falar que os caras começaram com Blitzkrieg Bop! Puta que pariu... olha, eu não contei músicas, eu não anotei set list e caralho a quatro. Estava lá me divertindo, não trabalhando. Não sou jornalista. Minhas fotos ficaram uma bosta, porque não ajustei direito zoom, luz e emissão de flash. E eu te pergunto: e daí? Os caras tocaram I wanna be your boyfriend! VTNC! Judy is punk, I wanna be sedated, Beat on the brat, meu filho!!! Pouca coisa do Bad Chopper, se não me engano só dois sons. It’s a long way back to Germany, Strength to endure, Sheena is a punk rocker. Será que foi bom? Olha, lanço um desafio aos produtores de rock desta cidade: tentem fazer um show melhor que este, em 2009!
“Ah, mas o CJ nem foi tãããão Ramone assim”, ou “ele é o Ramone mais páia”, ou ainda variações destas frases perderam o sentido, se calaram, se renderam, na noite de ontem. Daniel Rey e Brant Bjork deram o suporte para que parte do sonho de muita gente se realizasse. Gabba, Gabba, Hey!
Simples e direto, mas com o amor ao ofício estampado na face quarentona e sorridente do ex-baixista dos Ramones. Carisma, simpatia, empolgação, gozo. Foi isso que vimos no palquinho do Bolshoi. Paciência com fãs mais abusados, que queriam colher autógrafos no meio do show. Experiência pra segurar a onda quando Daniel Rey atravessou um acorde num som: os músicos se entreolharam e riram do pequeno deslize. Técnica, garra, gosto, persistindo depois de tudo o que estes caras viveram. Eles estavam “lá”, minha gente! São personagens da história do rock! Sem nenhum tipo de estrelismo, o Bad Chopper endemonizou o pit.
Pequena pausa, de mais ou menos 3 minutos, e volta ao palco pra tocar mais uns 5 ou 6 sons. Saída rápida, sem frescuras nem terceira aparição no palco.
E eu lá, feliz. Sorrindo mesmo, igual bobo. Paguei a conta e mesmo depois, sorriso de orelha a orelha. Valeu a quebra do orçamento. Eu faria de novo, se pudesse.
Ninguém é de ferro. Depois disso tudo, podrão na 85 e Coca-Cola. E um relato extasiado à outra metade da equipe do blog, já em casa. Levemente embriagado e pensativo, imaginei: se fossem os Ramones, eu teria desencarnado.
CJ Ramone fez valer cada fração dos meus R$ 50. Daniel Rey e Brant Bjork idem. Quando voltarem (se voltarem) à Goiânia, farei de tudo para estar lá com o Bad Chopper. Quanto ao Bolshoi, voltarei quando a ocasião pedir. Há inúmeros lugares legais na cidade onde não preciso gastar tanto para me divertir. Sendo franco, não faz meu tipo lugar como aquele. Gosto muito de ser bem atendido, como fui ontem. Gosto mais ainda de sentar pra beber enquanto espero um show, como fiz por lá. A paisagem então, nem se fala: mulheres muito bonitas onde quer que se olhasse. Porém, sabemos onde tudo isso é ofertado a preços mais camaradas. E convenhamos, o populacho dá bandeira em pubs como o Bolshoi. Não gosto de ser detectado, sou discreto demais pra isso, nem gosto de ofender a retina régia pequizeira, com meu flagrante look “off”.
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Há poucas fotos no nosso flickr, por enquanto. Somente da câmera posicionada no mezanino. Havia uma câmera no pit a serviço do blog, de frente à banda: as fotos estão excelentes, mas ainda não chegaram às minhas mãos. Mate o gostinho com essas:
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6 de julho de 2009

Chegou fim de semana, todos querem diversão...

...e havia inúmeras opções. O blog esteve em duas delas. O Férias Rock Festival e o Thelonious Monk. . Eu te conto:
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Uma galera muito louca aprontou mil e umas, numa tarde destas férias pra lá de animadas: FÉRIAS ROCK FESTIVAL !!!
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Meninas bonitas, meticulosamente recortadas dos clipes chorosos do Simple Plan e similares, molecada com cara de anime, rapaziada com penteados extravagantes, skatistas toscos, bikers sujismundos e muitos, muitos alargadores, tatoos, piercings e similares. Skate board, BMX, corrimão, parafina e saltos insanos. Iscas de sorvete gratuitas e sol escaldante da cidade que não tem inverno. Umidade relativa do ar baixa - o pequeno sangramento que tive no nariz acusou. Tudo isso no meio da rua, em pleno Jardim América – próximo ao PróBrazilian. É a gurizada off-circuit de Goiânia pondo pra foder, à seu modo. Também lembrou skate party que se vê em clipes gringos, como alguns do Pennywise - faça-se justiça. O Férias Rock Festival foi uma iniciativa de uma sorveteria e lan house situada na esquina da rua C-134 com a avenida C-104, a Fast Ship, e do Vitor Hugo, com seus acetonados cabelos amarelos. Um “evento pra quebrar a panela”, segundo comentários na comunidade orkuteira Goiânia Rock City, que infelizmente vem sendo o único ponto de informação sobre rock na cidade.
O lugar exalava cheiro de hormônio adolescente. Dentre as várias coisas que observei, sou obrigado a começar pela atitude da molecada. Dando banho de “faça-você-mesmo” em muito marmanjo chorão da cidade. Sem nenhum medalhão da “cena” por trás da organização, o público foi razoável. Eu esperava um pouco mais, pois não havia cobrança de ingresso. Nem mesmo pra andar na pista street improvisada do meio da rua. As bandas que vi tocando realmente não são rodadas nos palcos goianienses. E sobre os shows, não sei se a intenção era começar às 4 da tarde. Se era, foram pontuais. Se não, Goiânia que não cumpre a porra do horário Rock City. Será que sempre vai ser assim? Meus razoáveis anos nessa bagaça toda diz que posso me conformar. Mas reforço, não sei se o horário era mesmo às 16hs, para os shows.
Vi bandas que nunca tinha sacado antes. O-54 (“O” de Outono) iniciou as apresentações: rock básico, quadrado, sem firulas, bem ensaiado, alguns pequenos erros, com aquela timidez característica de moleques iniciantes. Numa aparelhagem legalzinha para o tipo do evento, o repertório curto incluiu Xuxa e Mamonas Assassinas. Panic Pronic veio em seguida, com um pouco mais de peso, numa linha mais metal (não me atrevo a arriscar rótulos nesse mundo de hoje...). A banda que teve maior apelo de público, pelo menos até onde estive presente, A+B, trouxe covers bem executados de Blink 182, a grande maioria, dessa última fase da banda americana – emo. E como boa parte da platéia presente se encaixava nessa onda já não tão nova, o sucesso foi patente. Depois, o Nova Conduta trouxe um som rápido, punk rock hardcore numa linha melódica, também bem ensaiado. No frigir dos ovos, boas bandas, considerando a pouca experiência, tecnicamente falando. Mas... (como eu adoraria escrever textos sem esse maldito “mas”), me digam pra quê aquela quantidade imensa, exagerada, pasteurizada, avassaladora, absurda, de covers? Por que meninos novos, talentosos, com um gás e uma atitude de fazer inveja, se rendem aos malditos covers? Por que seus amigos insistem em não valorizar o trabalho autoral? Como irrita ver esses amigos gritarem, após uma música autoral, a famosa frase: “- Toca isso! Toca aquilo!”. Vá para a puta que os pariu. Essa galera não vê que assim as boas músicas que eu ouvi, de autoria das boas bandas que estavam lá, nunca vão virar algo? Pois quem as compõe não se incentiva ao ver os seus amigos berrarem pra tocar sons de outras pessoas. Isso é simples e lógico. Tocar um ou outro cover é normal e até esperado. Meiar o show com músicas dos outros já é problema. Salvo o projeto que tocou que era sabidamente de covers. Pra estes, não há embuste. Saí de casa sabendo que eles só tocariam músicas do Blink 182. Esperei por sons do início da carreira da banda em vão. Desta fase nova, detesto tudo que eles fizeram. E não é por isso que eu não vou reconhecer a qualidade musical dos meninos do A+B. Aliás, de todas as bandas que eu vi.
Pelo atraso (?) inicial, não pude ficar pra ver as outras bandas. Uma pena, pois estava realmente curioso pra ouvir coisa nova. Saí às 6 e meia, quando a Aurora se preparava para tocar. Deixei de ver também a Reborni, que me foi bem recomendada.
De tudo o que pude perceber, os shows eram apenas UMA das atrações. Foi um evento que há tempos eu não presenciava. Uma sacada muito inteligente de quem organizou/ produziu. Teve a cara da molecada de hoje: intensa, que não espera que outros façam por eles, e ao mesmo tempo ingênua, com pose e circunstância que o mundo impõe à eles. Agressividade visual mesclada a uma postura quase infantil. Pouca gente bebendo, por exemplo. É bonito sentir essa energia deles, de verdade. Me dá uma saudade gostosa dos meus 18, 20 aninhos.
Não entendi o por quê de não haver um bar decente funcionando. Desculpe-me, Bibi. Não te chamei de indecente, he, he, he... mas bebericar Nova Schin, e só ela, mesmo num preço justo, é osso mermão. Investi no bar do outro lado do evento, onde achei Skol long neck por opressivos $2,50. Compare com eventos monstruosos, fosfóricos e afins e verás uma benção neste preço do boteco. Este pecado do evento, não pensar em estrutura de bar e banheiro (havia UM, unissex, para mais de 100 presentes) não chegou a comprometer o todo – não seria por isso que condenaria a gig.
Molecada, continuem. Não parem neste, façam mais festivais assim. Alimentem essa micro-cena rock da cidade. Isso é bom, agita, sacode, desembolora as coisas. Skate, BMX, sorvete e rock junto funcionou demais. Eu fiquei surpreendido. O saldo foi positivo, se é que eu realmente entendi direito o que se passou por lá: eu nunca me senti tão “fora d’água” num show de rock como neste sábado, he, he, he...

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veja algumas fotos aqui:
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Um fiel retrato da cena hardcore punk e metal de Goiânia. Thelonious Monk, Casa das Artes.

São 15:35h. Paro a moto em frente ao prédio da Casa das Artes. Absolutamente ninguém na porta. “- Ué, será que cancelaram? Fiz uma cera danada pra chegar um pouco mais tarde...”. Portas de aço baixadas, calçada vazia, angústia. Do outro lado da Anhanguera, o Bibi buzina, contorna, e pergunta ao descer do carro: cadê a galera? Não sei mesmo, cara. Largo a moto por lá e vou até a praça próxima dali, esperar. Tem sorvete, cerveja e tudo mais por lá, ajuda a passar o tempo. No caminho, encontro dois companheiros de fé, que me inquirem esperançosos, segurando um Cantina da Serra: eaê, começou lá? Devem me conhecer dos orkutes da vida, pois nunca os vi. Digo a eles: há somente o cara do bar lá na porta, com 4 barras de gelo derretendo.
Eu ainda não aprendi. Tenho essa mania feia desde moleque. Sou estranhamente pontual. Sou uma aberração, numa cidade que não usa relógio. Não sou fanático. Tolero variações, sou adepto à elas. Aliás, já trabalho minha agenda diária levando-as em conta. O mundo não gira em torno do meu umbigo, eu sei. Chego a me perguntar: será que eu li errado no e-flyer? Júlio WCM confirma que não: realmente era 14:00h mesmo. São 16:30h. Alguns gatos pingados das bandas que vão tocar estão na porta do antigo CETE. Não sou crooner, então desencanei do relógio nesse momento, em que notei que nem ao menos o som estava montado às 17:00h. Bom, o público do evento podia reclamar. Eu te pergunto: Que público? Numa olhada rápida, havia no máximo dez almas infernais esperando o levanta-poeira. Os outros dez eram integrantes das bandas, que no fuso-horário Goiânia Rock City, deveriam estar tocando pelo menos a partir das 16h. Te lembro, caro leitor, não sou fanático, jamais cobraria aqui um show de domingo se iniciar às 14h.
Matei a tarde do domingo toda ali. Desempolguei. Cansei. Estressei. Seria esse o momento de eu levantar o meu dedo indicador e arremessar a culpa nos ombros do mundo todo, ou no mínimo de quem eu tinha no meu campo visual naquele grotesco domingo na Casa das Artes? Não. Esse é o momento que me faz pensar: que porra é essa de cena? Por que, apesar de haver gente que trabalha e tenta, as coisas não fluem? Por que não havia, às 18:30h (olha o relógio, he he he...) literalmente NENHUM novato assistindo ao início dos shows? Sou capaz de citar, nome a nome, quem estava lá. As mesmas dezenas de sempre. É um ciclo vicioso. Os produtores já sabem que não tem público no horário, então eles atrasam a parada. Quando há vários imprevistos como ontem (por volta das 17h, não havia sequer bateria montada), mais atraso. Tinha gente nova na organização: o coletivo GirlPowerUnder. Falei com a Kemy um pouco antes dos shows, e fiquei com um misto de pena e sensação de impotência. Nada podia fazer pra ajudar. Quando o público chega, vemos os mesmos vícios de sempre. O mais foda deles é a mania de pensar que show não tem custo, ou ainda que quem faz o evento nada em dinheiro. Daí, a certeza de que “eu sou especial, posso entrar sem pagar”. Leitura errada do que pode ser a cena hardcore, moçada.
Lá dentro, escadarias, Bibi e sua maldita Nova Schin. Eu não mereço, parceiro. Banquinha montada, bem freqüentada, a parte mais legal do pré-show. Trocar idéia com nerds como o Pedrinho é sempre bom. Ele é minha atual fonte de informações sobre o que é quentura nos players da vida. Rever os velhos camaradas também é massa. Ensaiei um quibe da Tia Kemy, mas minha gastrite severa mal curada desde janeiro me disse que não era uma boa idéia. Ficou pra próxima.
Um puta som, mal regulado, o que é uma pena. Vi o show do Luta sem Descanso. A guitarrista extremamente técnica estava lá. A baixista boa de serviço também. O vocal cansativo da menina front-woman idem. A baterista que não inventa demais, e por isso é boa, lá. O que não estava era o mesmo tesão de um show que eu vi dessas meninas no Martin Cererê. Se não me falha a péssima memória que tenho, foi no mesmo dia em que o Biggs tocou. Saí do pit com o nome delas na cabeça. Assisti ao show, nesta feita, maravilhado. Disse pra um bróder, na ocasião: meu, onde essas meninas estavam? Mas ontem, não foi o dia. Show burocrático. Meninas, agora que voltaram, vou esperar outro show fodástico como aquele do Martin, viu? Como eu sei que vocês conseguem, to no aguardo.
Final de show das meninas, passagem de som do Corja. Passagem de som? Sim. Com tudo montado somente às 18:30h, nenhuma banda passou som, afinou instrumentos, enfim. Não deu pra mim. Precisava ir embora. Sacanagem maior foi a rapaziada começar “Supernaut” e não terminar, durante a passagem. É a minha predileta do Volume 4. Gostaria muito de ter visto o show do Corja, há anos que não vejo. Mas a circunstância não permitiu. Sociofobia, Warnoise, Black Skull, desculpe-me.
Por mais que você, leitor, queira que eu vá apontar o dedo para eleger culpados, eu não o farei. Eu preciso sim é me adequar. Vamos parar de falar do ideal e abraçar o real. Gigs hardcore punk ou metal se tornaram rodas de biriba. Eu que não sou tão entrosado assim, já conheço até as fofocas da galera. O que me anima é ver que tem gente ainda afim de produzir. As meninas do coletivo GirlPowerUnder estão de parabéns pela iniciativa, e eu lamento demais todos os contratempos. Eu vou estar, com absoluta certeza, no próximo evento de vocês. Seja em parceria com a calejada TBONTB ou não. No próximo, eu quero me ater ao show, ao espaço, com gosto. Ontem, meu humor foi amargamente temperado pela maior espera da minha vida por um evento cultural.
Produtores de hardcore, punk, metal e afins: perguntas novas precisam ser feitas. Neste espaço, eu pretendo contribuir, provocando, debatendo, abrindo as portas. Precisamos chegar a uma síntese rápido, para guiar a práxis. Refutamos (sim, eu me incluo) e tripudiamos do discurso de profissionalização do rock na cena goianiense. Será que ele é de todo ruim? Não há nada lá que possamos aproveitar? Na história, são muitos casos em que para haver a revolução, foi necessário um recuo estratégico. E são também muitos os casos em que, através do radicalismo sectário, projetos inteiros de transformação social se perderam.
Talvez, a entrada na terceira década de existência tenha comprometido minha paciência. Pode ser. Coisa de “velho”, querer voltar pra casa no horário programado. Minha esposa operária na pressão pra ir embora, porque hoje às 5:40h ela estava de pé. Tiro a razão dela? De repente, chegou a hora de eu baixar a coleção do Thelonious Monk, comprar uma boina e um pulôver xadrez (eu já uso óculos) e apreciar charutos. Quem sabe.
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veja poucas fotos aqui, que não ficaram legais porque minha máquina fotográfica não é nada boa para ambientes escuros:
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Ouça Thelonious Monk em ação. Eu não conhecia, virei fã. Jazz é louco. Créditos do Blog "Ai, que Jazz!":
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29 de junho de 2009

Um sinal dos tempos: rock, eletrônica, sertaneja... tudo, pra gurizada, vai bem no São João.


Os portugueses da época da colonização do Brasil, que trouxeram pra cá as tradições religiosas das festas aos santos, devem ter se contorcido em suas tumbas. O reduto do quentão, paçoca, milho e que tais foi “maculado” pela presença ostensiva do rock n’ roll. Rock brasileiro, cantado em português. Idéia desenvolvida por cinco professores de um colégio em Aparecida de Goiânia, o Expressão Vestibulares. Com Robert na guitarra, Anderson Chicão e Luís Eduardo Bacural nos vocais, Luís Guga Valente na bateria e o dono deste blog no baixo, os alunos que estavam no “Arraiá do Expressão”, realizado neste sábado 27, puderam ouvir os sons que “bombavam” nas rádios dos anos 80. Época em que a enorme maioria ali nem sequer havia nascido, com exceções de poucos alunos do curso noturno.
Há de se comentar que os “arraiais” de hoje já não são como na minha tenra infância - forró tradicional, tipo Gonzagão, vestimentas parodiando o roceiro e cardápio típico do campo brasileiro, à base de milho. O que se vê por toda a parte são “releituras”: a quadrilha mudou – em alguns lugares virou show de dança contemporânea – o cardápio oferece mais opções, como espetinhos e caldos, nem todo mundo se veste a caráter (eu mesmo não sou adepto), e o DJ contratado toca de tudo um pouco, MENOS forró. As duplas sertanejas “universitárias” ressuscitam clássicos oitentistas do gênero, e uma ou outra moda de viola. Enfim, a geração mudou da minha infância até hoje, e com ela mudou-se a festa junina.
Excelente espaço, muita gente prestigiando (meu falho senso de quantidade me diz que ali havia umas 700, 800 pessoas), e uma diversidade de ambientes fantástica. Alunos esperando ansiosos pela apresentação da Palmatória, nome dado ao projeto dos professores. Era a chance de ver aqueles caras do cotidiano da sala de aula, do dia-a-dia chato das quatro paredes, bancando roqueiros, tardios e fora de forma. O poder de aproximação, de humanização da relação professor-aluno que isso trás, dá um tema de dissertação. Assunto para outros blogues.
Aparelhagem bem precária, que impossibilitou algo mais elaborado. Se bem que não era essa a intenção. A apresentação começou com RPM, “Rádio Pirata”. Clássicos são inesquecíveis, por isso a molecada cantou a música toda, num mix de euforia desorganizada e saudosismo de uma época que eles não viram. “Maior abandonado”, do Barão nos tempos de Cazuza, foi fodástica. “Carta aos missionários”, do Nenhum de Nós, não foi tão celebrada, penso eu por ser menos conhecida pelo público leigo de rock. Um dos pontos altos do show, “Até quando esperar?”, da Plebe Rude, foi gritada pelos presentes de um jeito comovente. Depois, “Vital e sua moto”, do Paralamas, “Ciúme”, do Ultraje, “Meu erro”, Paralamas de novo, “Polícia”, dos Titãs e “Fábrica”, do Legião, compuseram o meio do show. Era moleque pulando, gritando e cantando numa alegria de dar dó. Quem pensa que o rock morreu na boca da criançada, reveja urgentemente seus conceitos. Menininhos e menininhas de 14, 15 aninhos, cantando a plenos pulmões músicas de 25 anos atrás. Foi lindo que só vendo.
Pra fechar a apresentação, a Palmatória escolheu outra do Barão, “Por que a gente é assim?”. Um repertório enxuto por dois motivos: era uma festa de colégio, não um show de rock. E a vida corrida de professor infelizmente não proporcionou mais ensaios (isso me soa muito familiar, he he he...). Mesmo assim, num balanço rápido, foi muito foda ver o poder do rock agindo na molecada. É uma geração menos preocupada com rótulos, mas aberta à diversidade. Os mesmos que pularam, agitaram e suaram no show da Palmatória, cantaram “xonados” os sucessos sertanejos do momento, no show posterior do palco principal da dupla Pedro e Roney, e “dançaram” (não sei se é o termo correto) trance, ou seja lá o que aquilo se chame.
Rock em festa junina, pra essa geração, tem tudo a ver. Eles querem provar de tudo, são mais inquietos, e estão subvertendo o que antes era tradição. Não que isso jamais tenha ocorrido. O que é diferente é a velocidade da mudança. Na festa de sábado, isso foi patente. O resultado que isso trará não há como prever. Não posso dizer que este é o fim das festas juninas, do “pula fogueira iá-iá”. Mas vejo este ciclo como inevitável e cada vez mais rápido.
Talvez este projeto vingue e se transforme em banda, especializada nessa temática oitentista do rock nacional. Me perguntaram na comunidade do orkut “Goiânia Rock City”, se o show seria com o lado “true” do rock brazuca. Não sei precisar, pois isso é muito variável. Eu detesto Legião Urbana com todas as minhas forças, e nem por isso deixo de considerar uma banda válida deste recorte de tempo. Por isso toquei uma música deles, sem problema. Faltaram outros nomes típicos do período. Como eu disse, não dava pra se estender no repertório. Agora, se fomos “truzão”, cada um julgue por si, até porque pra nós isso não fará a mínima diferença. Queríamos nos divertir, divertindo nossos alunos, e isso eu garanto que aconteceu de forma espetacular. Em tempo, eu estava numa puta ressaca e provei quase nada do cardápio. A Dri provou o espetinho, o caldo e o pé-de-moleque. Pelas suas reações, aprovadíssimos. Viva São João.

22 de junho de 2009

As férias do submundo

Celebrar a vida e a diversidade, sem nenhum motivo especial. Foi isso que fizemos aqui, no Rango Rock, neste sábado 20 de junho. Chikão e Roberta, Bacural e Lê, Guga Valente, minha esposa e eu – esse timaço formado de personalidades diversas – tomamos uns e umas, ouvimos muito rock, a contragosto de Adrielle e Lê, que não são adeptas das guitarras destorcidas, experimentamos queijos e comidinhas de boteco feitas pelos anfitriões, enfim, farreamos.
No meu toca CD rolou de tudo um pouco, dentro do mainstream. Isso mesmo, nada de bandas podronas da cena do old school east side true crew muthafuka da Islândia ou da Finlândia dos anos 80. Nenhuma sequer com tremas ou fontes de old english nos nomes. Nenhuma demo de edição limitada de 20 cópias da cena de Osasco de 82. Neste dia, a molecada do Ímpeto tirou férias do submundo. Ouvimos Nirvana, Ramones, Coldplay, Pearl Jam, Metallica, Iron Maiden, Bad Religion e outros tantos nomes que são manjados na MTV e no escambau. A gente também tem direito.
Houve uma única exceção. O último e nem tão novo CD do Motherfish. O papo sobre rock caiu na vertente depressiva. Não que o Motherfish o seja. Mas não há como não evocar a banda e sua melancolia bem trampada num papo assim. E ainda conta que o Bacural não conhecia o trabalho, então resolvi mostrar.
Tombamos 4 garrafas de vinho, todos cotidianos, nada de sofisticado. Um rótulo nacional branco chardonnay, um português estremadura do Dão Sul, filho da puta de encorpado, tanino. Além de um chileno cabernet sauvignon bem melhor do que qualquer outro que eu já tinha provado, nestes 2 anos de estudos, e um sul-africano pinotage comprado a módicos 20 mangos, eleita a melhor garrafa da noite. Em média 23 reais a garrafa, é o que diz a calculadora do meu celular.
Não cheguei a abrir a Sagatiba Velha que eu tenho aqui. Fiz o oferecimento, mas não houve macho que a encarasse.
Cerveja boa à revelia: Brahma Extra ($0,99 no Carrefour Sul, numa promoção relâmpago), Bohemia, Teresópolis e Devassa Loura, todas pilsen.
No cardápio ainda constaram 7 tipos de queijos, entre nacionais e importados. Porção de alcatra no pimentão amarelo e vermelho (apelidada por mim de espanhola), uns frios, amenidades, etc. Sim, foi uma esbórnia pantagruélica. De tamanha magnitude que despertou minha enxaqueca, adormecida há uns bons meses. Crise pós-cachaçada, que arrematou meu domingo.
A diversidade de sabores, perfumes, aparências e texturas do cardápio, é a cara do gosto coletivo que rolou no som dessa noite. Nada de extremismos, apenas sentindo que a “cultura rock” é tão abrangente que poderíamos ficar mais de um milhão de noites apenas pra sacar som. E que isso convive numa boa, no mesmo ambiente, se há um mínimo de tolerância. Estive num fantástico jantar na casa do Guga, onde saboreei uma fraldinha assada espetacular, copiada descaradamente em minha casa uma semana depois (e que não executei com a mesma perfeição, diga-se). Na ocasião, bebemos vinhos muito bons, cerveja boa, com excelente companhia. E ouvimos muito Jazz. Daquelas big bands, tipo deprê dos anos 30, e aqueles mais animadinhos já dos 50. A diversidade é uma virtude alcançável a qualquer mortal. Não precisamos viver o tempo todo pregando que o capitalismo é um mal ou que a fome que assola a África é fruto do imperialismo. Podemos aproveitar a diversidade e absorver aspectos culturais novos que estão diretamente lincados com o mundo do rock. Sem deixar de considerar a raiz hardcoreana.
Quem não conhece o Guga Valente, poderia imaginar que o guitarrista do Ímpeto, banda referência da tosquice anti-cena-profissional, gosta de Shakemakers? Ou que este que digita de cá tem tudo do Coldplay? Ou que o Bacuras, hardcore até o osso, é fã de Alanis Morissette?
Noite em que percorremos muitos lugares diferentes, dentro de uma sala de oito metros quadrados. Noite em que a síndrome dos 30 pegou a gente de jeito (aquela mania de pensar que já estamos velhos), trazendo saudosismo dos bons tempos, que o foram simplesmente porque NÓS estávamos lá. São 15 anos de cena, de minha parte, acho que uns 17 por parte do Guga e Bacural, que são mais velhos que eu (he, he, he...).
E disse o Rock n’ Roll:
“ – Bem aventurados os partidários da diversidade, porque eles são os fodões”.

26 de janeiro de 2009

E se não fóssemos do "clube"? Rolê no Capim.

Veja mais fotos do evento em www.flickr.com/photos/andrelopeserl .
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HC Attack, no Capim Pub, 24/01/09. Um rolê punk como há muito tempo eu não via. Um esquema massa, muitos amigos e conhecidos, barulho de primeira qualidade (por mais contraditório que isso possa soar), cerva gelada e casa lotada. Perfeito. Maravilhoso, para quem tem referências neste universo da cena.
O Capim Pub é do tipo de lugar que já é lendário. Será papo de velhos saudosistas daqui a algum tempo. É tido como a casa verdadeiramente underground da cidade. Tem uma história legal, de abrir as portas pra bandas iniciantes e produtores que não tem tanta grana ou patrocínio pra gastar. Desperta apaixonados debates na cena, sobre o que é ou não é ser alternativo. É visto como o reino da tosqueira, nas duas acepções mais comuns do termo aqui na cena goianiense. Referência no universo punk/hardcore e metal. Por tudo isso, eu me sinto em casa naquele lugar. Mas, será que pra quem não é “da galera”, não é iniciado, o Capim Pub é uma atração que vale a pena? Isso me martelou na cabeça mesmo antes de sair de casa.
Rolê no Capim, pra equipe do Rango Rock, começa no hipermercado bem próximo dali. Sabemos da oferta de cervejas do pub, freqüentamos o espaço há muito tempo. Então, alguns goles de cerva boa e barata antes de chegar ao evento. Evoco uma expressão que fez relativo sucesso em nosso texto passado, agora toda em maiúsculas, pois vi que tenho companheiros na causa: GOIÂNIA-QUE-NÃO-CUMPRE-A-PORRA-DO-HORÁRIO-ROCK-CITY. Cara, isso é foda. Grande parte do problema no HC Attack (e qualquer outro evento na casa) esteve no próprio público: às 14 horas, o Capim estava jogado às moscas. Não havia ninguém lá. Voltamos pra casa, literalmente. Moramos próximos dali (2 ou 3 quilômetros).
De volta às 3 e meia, mesma cena. Desconfiamos sobre um cancelamento do evento, mas não. Era atraso mesmo. Voltamos para o hipermercado, mais algumas “verdinhas” geladas, para retornarmos às 4 e alguma coisa. Surpresos? Jamais. Tínhamos exata noção de que ia ser assim. Por isso, estávamos relaxados. Na área descoberta, nos fundos do Capim, um papo massa com gente massa (Pedro, seu nerd! he, he, he...). Isso faz a diferença por lá. Som, cerveja, amigos, relax.
Os shows começaram próximo das 18h. A rapaziada do Sevandija, projeto dos caras do Ressonância Mórfica, arregaçou com grindcore potente, e um cover inusitado de Titãs. Esses moços destilam agressividade musical, numa performance bombástica. Não há como não lembrar da bíblia do estilo; Napalm Death no início da insanidade. Bom projeto paralelo, moçada. O d-beat europeu do Death From Above me fez lembrar da minha primeira fitinha K-7 do Discharge, “Hear nothing (...)”. Virulento. Soa como clássico. Pôs a galera pra bailar. Quando a experiência e a competência do ARD subiu ao palquinho apertado, o calor já dominava o ambiente, deixando a galera mais agitada ainda. O ARD mostrou um pouco da sua história e justificou porque pode ser chamado de lenda do hardcore brasiliense. Show solto, descontraído, como a maioria que rola no Capim. Com toda a certeza, a temperatura interna estava acima dos 30 graus. Eu pensava nos suecos do Civil Olydnad: deviam estar passando maus bocados aqui nos trópicos. Chuva, umidade e calor, muito calor.
Um pouco tímidos no palco, mesmo tocando. Mas o som era coisa fina de se ouvir: um punk rock rápido, sem virtuosismos desnecessários, direto. O bando de malucos escandinavos só reforçou a “verdade” de que o lugar lá é um celeiro de rock massa. O “obrigado” com sotaque, após cada som, era uma forma de expressar o que se via no rosto dos caras: eles piraram pra galera, que fez do Capim o portal do inferno! Pogo insano no pit, covers mais inusitados ainda: Galinha Preta e RDP. E mais uma vez o Rango Rock foi prejudicado pelo atraso no início de um evento: tínhamos compromisso inadiável, e saímos antes da apresentação do Atomic Winter, que se iniciou bem depois das 8 da noite. Pena, de verdade. O que vimos nos deixa na obrigação de parabenizar Natal e Segundo: puta escalação de responsa. Nenhuma banda verde.
Se valeu a pena? Não via algo assim há muitos anos, já disse. A cerva lá é cara, mas estava gelada. Sugiro ao Afonsinho que tenha mais Brahma no estoque da próxima vez, e não me obrigue a tomar Bavária. Não há mesas, cadeiras, conforto... e quem se importa? O fuso horário de 4 horas de atraso não foi problema insuperável, eu já sabia dele. Não há o que comer, embora um misto quente esteja anunciado numa empoeirada tabela de preços. Aliás, quem é “de casa” improvisou um rango ali antes do evento. Não me aprofundarei pra não falar daquilo que não fui chamado à comentar, he he he...não há banheiro decente, e eu poderia continuar a lista do “não há” com muitos outros caracteres. Mas eu prefiro a lista do “Há”. Há atmosfera de amizade, sinceridade, verdade. Há música boa. Há relax, há menos pose, há descompromisso com inúmeras outras relações que perpassam por profissionalismo da cena. Proposital mesmo. É a velha espontaneidade adolescente do hardcore. Há gente que busca isso. O “clube” é reduzido, mas não é fechado, e a prova de admissão pode ser muito bem um evento no Capim Pub.
Quem não é “iniciado” tem que ter em mente o que vai “comprar” quando topa ir ao Capim. Tentei me colocar na pele de alguém que não fosse do “clube”, e imaginei que eu iria embora às 4 da tarde, após esperar mais de duas horas pelo evento. Ou quem sabe ao tomar ciência das marcas de cerveja oferecidas. Até mesmo ao ver o banheiro masculino. Depende. E vale a pena, pro moleque que nunca pisou por lá e nunca esteve na “cena”? Olha, a julgar pelo que ouvi de alguns alunos meus que estavam lá, sim. Parece que foram contaminados pelo vírus da tosqueirice. Penso que entender o que se passa em um evento deste não é da boa vontade de todos, mas se isso ocorre, o hardcore se fortalece naquilo que ele tem de mais verdadeiro.
O Capim Pub é a extensão do quintal de casa (ou da sacada do apê, no meu caso). Entra, pega emprestada uma bermuda, põe a havaiana azul com branco e relaxa. É positivo isso? O Rango Rock acha que sim. Mesmo bebendo a maldita Bavária. Mesmo esperando quatro horas pelo evento, mesmo de pé o tempo todo. E só vai concordar quem tem o vírus do hardcore correndo nas veias. Aqueles que não, vão continuar achando que não vale a pena, que é porco, sujo. Pelo que vi sábado, estes não fizeram, não fazem e nunca farão falta alguma.

19 de janeiro de 2009

Resistência roqueira no Esconderijo: desencane para aproveitar!

Saudade, palavra triste... aô chão goiano! Quisera eu gostar de sertanejão (ou como queira chamar). Lugares diversos não faltam pra se ouvir “moda” e beber em um plúmbeo domingo. Do boteco sujo da periferia ao mais requintado bar em “área nobre”. Eu tenho saudade sim, dos domingos do Cantoria, ou dos mais recentes “Capim Rock”. Mas como este saudosismo é bobagem, me dispus a conferir algumas alternativas que vem aparecendo no rock daqui. Despi-me da preguiça em observar outras tendências, que não o hardcore e o punk, em suas diversas subclassificações. Lá vai a “equipe” Rango Rock pro rolê hard rock. Domingo com o Zeca Camargo, nem pensar.
“Goiânia Rock-que-não-cumpre-a-porra-do-horário-City”. O evento, marcado para as 18, começou às 20:40h. For Those About To Rock, no Esconderijo Bar, com mais de um ano aberto, e somente agora visitado pelos membros desta equipe. Cena inusitada: músicos e técnicos de som à espera do dono do estabelecimento, que ainda não estava aberto no horário marcado para os shows começarem. Recuso-me a comentar. Fred Mika foi certeiro: não interessa em que Igreja roqueira você confessa, algum descaso com o público por parte dos donos das casas sempre existe. Mais tarde a gente volta aqui.
Bar sem frescura em “área nobre” (expressãozinha filha da puta essa, não?). Ponto positivo. Entramos 7 e alguma coisa, o serviço começou às 20:10h. Fazendo jus à expressão “copo sujo”, nossa equipe começou a trabalhar numa Antarctica Original dentro de um copo sabor cupim bovino. O pedido ao garçom pra lavar o copo foi mal interpretado, sendo apenas trocado por outro, sabor picanha. Vá lá, é só não cheirar o danado. Uma cerveja “quase pedrando” não é vantagem. Aquele semi-sorvete não tem sabor, não dá pra sacar se é falsa. Aliás, é um truque que muito bobo cai. A segunda garrafa pedi apenas gelada, e não congelando. Original originalíssima, gostosa como deve ser. Preço de sempre, nada exagerado, na casa dos 4 reais.
A banda Devon subiu ao palco desfalcada, num duo de vocal/violão e bateria. Logo de início, excelente set list. Clássicos de Iron Maiden e Black Sabbath na fase Dio, entre outras coisas. A “equipe” vibrou, atingiu em cheio nossos gostos. Poucas músicas próprias, identifiquei duas. Não vou analisar covardemente os caras, que tiveram a decência de honrar o compromisso sem 60% da banda. A Jackie’s Knife foi a surpresa da noite. Nunca tinha ouvido nada deles ao vivo. Sabia apenas dos covers de Guns n’ Roses, uns muito bons, outros nem tanto. Rapaziada da banda, façam um favor a vocês: invistam em composições próprias, vocês são bons. O vocal é seguro, afinado. Escorrega de vez em quando, poucas notas atravessadas.
O que me irrita é ver amigo da onça gritando insistentemente aos meninos: “Toca Guns!”. Vá introduzir um falo no orifício anal, porra! Bons músicos como eles devem tocar composições próprias, oras. O Mötley Crüe foi massa, mas insisto: toquem mais coisas de vocês.
Acompanhando o som, uma porção de batata frita. Eles servem aquelas do tipo congeladas, não são cortadas na hora. Gostosas e secas. Com a Original, então... Diga-se de passagem, bom cardápio para um bar. Clássicos do gênero e boa variedade de cervejas, pra todos os bolsos. Nem tanta para uísque e vinhos. Só “os de sempre”. Não há cerva importada no cardápio. Enfim, é como dissemos: bar sem frescuras. Preços honestos.
Quando o Sunroad subiu ao palco, a janta dominical chegou: porção de frango frito à passarinho, bem acebolado, sabor batata frita. Me esqueci de pedir ao garçom para não servir os dispensáveis alfaces murchos que classicamente acompanham esta “comidinha de boteco”. O sabor da batata pedida anteriormente, marcando o frango frito, me diz que a cozinha é bem econômica, para ser otimista.
Preciso comentar sobre a competência do Sunroad? Banda profissional, com muita estrada e vários títulos “cheios” no mercado. Comprei a coletânea da banda, e ouço-a enquanto escrevo. Rock até o talo, moço! Pra quem gosta do gênero, como eu, prato cheio. Destaco o som Midwest Sand. Ao vivo, ficou matador.
A última Original veio matematicamente gelada. Excelente. Tomamos a obra de arte durante o show do Sunroad. Maldita Lei Seca, maldita vida de operário: não assistimos à apresentação da Seventy Now. Pena mesmo. Passava muito das 23h quando saímos do bar.
Gente diferente, público bom, menos do que esperávamos. Atendimento rápido, com poucos pecados. Banheiro decente. Bar com cara de rock, “decorado” pra isso. E o que me deixa puto é ver um bar “sertanejo” lotadásso, “bombando”, bem próximo dali. Pode acontecer que um dia o Esconderijo perceba que abrir pro “público do chapéu” dá mais grana do que sustentar o sonho de um bar alternativo. Será só mais um lugar legal que o público roqueiro não soube valorizar e que se rendeu. E não teremos direito de reclamar. Os donos lá devem ter muita conta pra pagar. Observamos alguns probleminhas no serviço da casa, mas não recomendar que você vá até lá seria de uma burrice sem tamanho da nossa parte. A “noitada” hard rock valeu a pena. Superamos o fato de termos sido desrespeitados no horário e no pedido do copo limpo. Não ligamos pro frango sabor batata frita. Acomodados? NUNCA! Apenas pensando que a relação custo-benefício pode ser legal, se você desencanar. Assim é o Esconderijo. Lugar pro rock, que tomara não se renda fácil ao sertanejo universitário. Pra esse público, Goiânia ferve de domingo à domingo. Deixe o rock sobreviver, porra!