9 de fevereiro de 2010

Sábado de fast-food no Martin Cererê: Covernation 2010.

Eu era sempre um dos primeiros a bradar contra eventos de covers. Eu era intransigentemente contra ocupar espaços culturais com embustes e micagens dos ídolos do mainstream, já que é tão difícil conseguir tais espaços.
Eu era.
Sábado 6 último eu mudei minha opinião parcialmente: estive no Covernation. Saquei que aquilo é muita diversão em um lugar só. O evento mobiliza a cidade, ou pelo menos parte dela. A gurizada vai à estratosfera da felicidade. O Martin Cererê lota. É sem dúvida um dos grandes eventos de rock do calendário goianiense.
Eu explico minha implicância com bandas/eventos covers: nada é produzido, tudo é copiado. É a reprodução de algo às vezes já pasteurizado pela grande mídia de rock. É enfadonho porque não há surpresas, sabe-se exatamente o que vai acontecer.
A salva-guarda do festival em questão foi exigir das bandas inscritas trabalho autoral. Achei isso bacana da parte do idealizador, Richard Ferreira. Assim, evitou-se a principal crítica que este tipo de festival suscita: tirar a vez de quem rala tentando criar seu próprio trabalho.
Por outro lado, o estigma de cidade que gosta mais de covers do que de suas próprias “crias” continua: o Covernation leva mais público do que 80% dos festivais ao Martin Cererê. Dentre n outros fatores, justamente porque a rapaziada público-alvo sabe que só vai ouvir seus heróis de MTV. Ou outros clássicos não tão conhecidos do grande público televisivo, mais ultra-sacados no mundo dito alternativo. Em suma, ainda é um festival de covers, imitações, algumas bem baratas, e isso não se pode apagar.
Volto a dizer: me diverti pacas. Poguei, gritei, subi ao palco e cantei um som inteiro do Cólera, na fodástica apresentação do Sangue Seco, topei vários camaradas das antigas e das novas, poderia ter juntado uma turma toda de alunos lá dentro (uns 20 no mínimo), enfim. Ainda assim, não saía da minha cabeça a pergunta que não consigo responder: por que o público goianiense tem esse fascínio tão grande por projetos covers? Talvez eu finja não saber a resposta, pois assim fica mais cômodo raciocinar. Talvez. Um dia a gente volta aqui, certamente.
Chegamos por volta das 4. Pelas histórias a mim relatadas, eu esperava encontrar uma fila e quem sabe até não conseguir encontrar ingressos promocionais a 5 reais. Ledo engano: tudo tranqüilo e sossegado, ingressos na mão e um estranhamento inicial – Martin vazio. No folclore do Covernation constava pontualidade, e isso não demorou muito para ficar só no mito mesmo. Atrasos em eventos de rock são parte de um culto poderoso, indestrutível. Fiquei feliz pelo pouco atraso, e isso já é um começo.
Aos poucos, o lugar foi enchendo das mais variadas espécimes da fauna roqueira. Fico realmente impressionado como essa rapaziada de agora tem disposição para “tunar” a aparência: tatuagens, piercings, cabelos coloridos por mais cores do que eu imaginava existir. Um festival de excentricidades. A molecada ainda quer chocar, é fato.
Sábado de sol goiano, sempre acima dos 30°C. Adrielle e eu merecíamos uma cerveja gelada. Li em algum lugar que o bar seria terceirizado. Algo sobre a Fósforo assumir. É comum eventos patrocinados oferecerem somente uma marca de cerveja, mesmo sendo uma de muitas de uma mesma multinacional. Sinceramente, não sei se foi o caso do Covernation. Fato é que só havia uma marca disponível: Skol. Sabemos da facilidade que isso pode oferecer para trabalhar com caixa, ao padronizar valores. Porém, no quesito agrado ao público, isso pode ser um desastre. Ao comprar cerveja ouvia um ou outro reclamar sua marca favorita, não presente no bar. O vício do povo brasileiro por filas é algo hilário: em frente ao caixa perfilavam-se 20 pessoas, enquanto no guichê de entrada do Martin comprei minhas fichas de água e cerveja sem ninguém a minha frente.
Minha primeira lata acredito ter saído diretamente do pacote, passado por um espanador de poeira e servida a mim. Quente. Nem fria. E choca. Não acredita? Pois eu vou repetir pra quem mais quiser ler isso aqui: choca. Entendo que contensão de gastos é importante. Entendo que sobrar cerveja em um evento já ocorrido acontece. Mas daí a ser servida pra mim, e qualquer outro consumidor desavisado, peralá. Chega a ser insultante o staff do bar imaginar que um consumidor regular de cerveja não reconheça um produto deteriorado.
Começo com pé esquerdo. Mas cara, era sábado. E nesse eu ainda não trabalhava. Precisava de muita coisa pra derrubar meu humor. E ao entrar pra ver o Ultravespa mandar um Cascavelletes, banda que realmente eu não me interesso, tudo voltou a ser ensolarado. Puta show legal de se ver. Gosto muito quando se vê a alegria no rosto do músico no palco. Levei o show como se os sons fossem deles. Facilitou eu não me lembrar de muita coisa da banda homenageada. Ainda bem.
A segunda cerveja deve ter ficado uns 10 minutos no freezer. Estava fria. No terceiro gole já havia se igualado à primeira. E isso por extorsivos 3 reais. Um verdadeiro absurdo, incompreensível. Não tive coragem de bancar o consumidor consciente frente à simpatia dos atendentes. A terceira lata eu pedi que fosse trocada. Duas vezes. E não adiantou. Continuei recebendo latas de cerveja frias, nada convidativas. Junta-se a isso o fato isolado de eu não ter a Skol na lista das mais. Sim, essa parte de bar fudeu mesmo.
Fui seletivo quanto aos shows. Só experimentei algo diferente vendo o Ultravespa. Estava ansioso para ver os Engravatados mandando sons da única banda que me empolga na geração 80 do rock brasileiro: Ultraje a Rigor. E acredite: foi um puta espetáculo! A banda é deveras competente, executou as músicas com maestria. Coisa bonita de se ver. A energia contagiou o público, que começou a se soltar no pit. Todos os clássicos, músicas cantadas em coro com a moçada.
Minha fome teve vergonha de prosseguir a aporrinhação quando ela soube do preço do cachorro-quente: 3 reais e 50 centavos. A única iguaria comestível no ambiente. Me parecia um bom bate-entope: muito condimento, recheio generoso. Tamanho diminuto, porém, para a pequena fortuna cobrada por ele. Quem é assíduo freqüentador de pit-dogs sabe do que estou falando.
Precisava sair do Martin para esperar amigos que haviam combinado de aparecer no evento. Ponto de referência: Praça Cívica, posto. Esperando e me deliciando com Heineken gelada por modestos R$2,70. Isso sim. Deixa eu destacar de novo uma parte importante: gelada. E Heineken. Numa loja de conveniência, que ganha horrores no preço final da cerva. Aproveitei a deixa: tomamos 4 verdinhas.
Quando de volta ao Martin, eu ouvi o Sangue Seco conclamando as hordas hardcoreanas com golpes brutais nos tons da batera, dando início à “Medo”, hino do Cólera. Eu disse a mim mesmo: meu sábado de diversão começou. O repertório perfeito, a energia pulsando do palco (mesmo com o Eduardo Inimigo, vocalista, insistindo no discurso “somos velhos e blá, blá, blá”), a interpretação seca e violenta, virulenta da banda – eu fotografava, eu cantava, eu pogava. Eu não, nós. O teatro inteiro. No pit, a ritualística roda se abre: a molecada dava mostras do que o rock é capaz, onde ele vai além das demais estéticas musicais.
Fim do show, camisa bege do Cólera empapuçada de suor, a Kodakizinha com pilhas fracas e fotos beirando o ridículo. Não adiantava regular o flash. Não havia mais força nas pilhas para tanto. Outra Skol pra ratear o calor? Não, obrigado. Meu bolso, meu paladar e minha vergonha na cara agradecem.
Eu vejo os Ramones como um rito de iniciação: a coisa toda tem de começar ali. One, two, three, four é básico. Deveria ser matéria escolar. Os Bizarrones fizeram jus a esta minha posição. Dizer que se ateram aos clássicos seria ingenuidade: há como fazer um show só de clássicos de mais de 2 horas. Você, eu e as pedras de Pirenópolis sabemos disso. Uma verdadeira avalanche de hits. Muitas fases da banda sendo abordadas. Show incrível. Cantei muito. Não nos microfones, super disputados pelo público. Moshs insanos, pois a segurança passou a aliviar a barra. Festa bonita de se ver.
Tirei um dia pro fast-food. O Covernation é um espetáculo que, para o público comum, como eu, é bem organizado, em comparação com outras experiências por aí. Mas é fast-food. Enlatado. É a celebração do trabalho alheio, no caso da música que eu ouvi por lá. É hiper-divertido, agrega público que dificilmente cola em outros eventos, movimenta a cena. Mas tem contra si a atitude de incentivar o trabalho não autoral, mesmo com a exigência de que só participassem bandas autorais. O público presente reafirma seu gosto pela produção artística não-autônoma. Isso é “cultural” por aqui.
Fast-food: é uma delícia na hora. Deixe 10 minutos ao relento e você terá comida cancerígena, dizem uns. Muito boa pedida de vez em quando. Você come, satisfaz a necessidade de gordura saturada e açúcar e por dias, seu cérebro fica feliz. Com música também é assim. Cover de vez em quando é muito legal, vi isso de perto. Mas se rola sempre, enjoa. Dá câncer na cena local. É prato de consumo rápido e esporádico. Se eu pudesse recomendar algo, eu diria que um evento desse tipo por ano é a pedida. A julgar pelo público que ele arrastou para o Martin neste sábado, penso que alguns produtores não estão interessados em deixar esse filão pra lá. Richard terá concorrentes em breve, eu sei.
Após o show dos Bizarrones, Dri e eu nos demovemos. Precisávamos comer algo, e em nenhum momento nos sentimos atraídos pelo cachorro-quente, a ponto de ir contra nossos instintos e desembolsar R$3,50. Há um bom bar em frente ao nosso prédio, que serve uma senhora porção de filé de frango grelhado por 15 lascas. E Brahma 600 ml noiva por 3.
Tenha certeza: no próximo Covernation eu estarei lá. Não sei se com o blog, mas estarei. De vez em quando, comer fast-food é bom para a alegria.
Veja aqui algumas fotos legais, outras nem tanto:
Não tive tempo hábil de editá-las. Prato cheio, hein? Divirta-se!

5 de fevereiro de 2010

Comida Caseira: Britpop e Death Metal.

Estava tudo certo. O roteiro do fim de semana se iniciaria no República, onde rolou uma festa insana, segundo tive notícias: o “Projeto Barulho”, em sua primeira edição. Depois, o itinerário seria uma boa churrascaria de Goiânia, onde comemoraríamos, a dois, o aniversário da Dri, minha esposa e a metade feminina da equipe do blog.
Estava tudo certo. Mas...
Tínhamos uma visita para recepcionar na tarde daquele 30 de janeiro. Planejada para as 17hs, e sabendo que somos brasileiros e não britânicos, esperava-a por volta das 18hs. Conhecendo o fuso-horário Goiânia Rock City, tinha plena certeza que show no República, só depois das 22hs. Ficaria por ali até próximo da meia noite, para depois ir jantar.
“Visita de grego”. Chegaram às 21hs. Minha paciência e humor já não existiam. Todo o plano foi por terra. Engraçadíssimo foi oferecer um cardápio de lanche em horário de jantar. Gostei muito de fazer isso, para salientar como um desconfiômetro de vez em quando não faz mal. Bolo, refrigerante, sucos, salgadinhos, às nove da noite. Bem apropriado, para fazer lembrar o quão atrasada está uma visita.
Não saio de casa com o humor tão abalado. Sábado em casa, fazendo sala. Sorriso amarelo-frustração, convenção social, e o gosto azedo inédito de uma mazela do matrimônio.
Domingo é deprimente por si só. Essa é a impressão que eu tenho, ao levantar-me nessa “prima féria”. Neste último, fiz o clássico programa familiar – almoço na casa materna, e tudo o que isso representa pro campo da memória gastronômica. Geralmente, a mãe é o primeiro referencial de qualidade que temos: nosso paladar é moldado de acordo com o que ela nos apresenta na tenra idade. O que é bom ou não dependerá do quão se aproxima daquilo que desperta em nós a lembrança boa da infância. Essa é uma das magias da culinária. Não interessa se sua mãe não sabe executar um prato de acordo com o convencional. Para você, aquele é e sempre será o melhor que você já provou. A complexidade de texturas, aromas, gostos e outras sensações mais nos fazem viajar pra longe, no tempo. Uma simples macarronada com frango e Coca-Cola é capaz de fazer você se debulhar em lágrimas. A comida caseira é a melhor coisa do mundo. E eu tenho uma pena sincera de quem não sabe o que é isso.
Eu tenho plena convicção de que o estado emocional da pessoa pode ser transferido para a comida que ela prepara. Eu evito ao máximo cozinhar quando estou de mal com a vida, ou algo que o valha. Sempre ocorrem catástrofes nestes dias. Esta minha “tese” ajuda a explicar porque comida caseira é tão boa, mesmo sendo a mais simples possível. Havia dias que não via meus pais. Senti cada toque da saudade e do carinho da minha progenitora naquele simples macarrão. Já disse o mundo publicitário: o segredo é o amor. Se possível, não sendo com Zezé di Camargo e Luciano ao fundo, por favor.
Tenho alimentado muito meu player com “comida” goiana. Não a típica. Aquela com cara de chão vermelho e árvores retorcidas pouco me seduz. Ando apreciando releituras goianas de clássicos de outras paragens: grunge, britpop, rock n’ roll, death metal. E a cada dia que passa me convenço mais que por aqui, a produção está entre as melhores do Brasil. Coisas que também mexem com minha memória, que também trazem sensações gostosas, assim como comida caseira. Música caseira, eu diria.
Não é segredo pra ninguém que eu gosto muito de britpop. Oasis, Blur, Coldplay, Rascals, enfim. Em Goiânia, já havia rasgado muita seda para o Motherfish, que bebe dessa fonte. E tinha me esquecido do Barfly, banda que comecei a admirar depois de um Bananada da vida. Não tenho este último disco deles em CD, somente em mídia digital. Meu inglês é muito limitado, mas o que deu pra sacar foi um puta trabalho conceitual, coisa digna de gringolândia mesmo. As sacadas com o “tempo”, faixa a faixa, são muito boas. As melodias remetem à um trampo completamente autoral e intimista, sem parecer, hora nenhuma, cópia de inglês deprimido. O Barfly me ajudou a driblar o domingo de derrota do “melhor do mundo”, o Atlético Clube Goianiense, em Catalão. Tá, eu sei, é som de indie amarelinho de óculos de aro grosso. É esse o rótulo da banda, pra alguns. A dica que eu dou pra essa galera é largar de ser besta, abrir o horizonte musical e aproveitar essa iguaria local, feita com ingredientes caseiros. Digna da aprovação dos melhores chefs desse gênero, nessas Manchesters da vida. É um disco que eu vou ter em mãos. Prometo.
E se o lance é despertar sensações de outras eras, o que eu posso dizer quando eu ouvi a demo do Spiritual Carnage, de 1997? O blog da Two Beers, que disponibilizou o material, está arrebentando. Segundo, seu fanfarrão, cuidado com estas coisas, cara! Assim, você mata esse coração tosco! Explico: o Spiritual Carnage foi simplesmente o primeiro contato com o underground que tive em toda a minha vida. Conhecia um primo de um dos caras da banda, o Alaerte, ali na BCL. Minha quebra, assim que cheguei a Goiânia. Eram tempos de andar de preto, biquinho maligno, cruzes invertidas no pescoço, anéis nos dedos, ouvir orações ao Satanás ao sabor de Chora Rita. Como aquilo tudo foi divertido! Ao sacar de novo a demo, todo o filme passou na minha memória. Embora eu não tenha absorvido absolutamente nada das pregações do death metal, restou o gosto pela atitude under e a técnica do som. Essa banda é heróica, só isso.
Dois trabalhos distintos, onde a honestidade é patente. Você ouve e sente a essência da coisa toda ali dentro. Produziram com amor (ou ódio, he, he, he...) e sinceridade. Pelo menos esta é a leitura que faço deles. Você aufere a alma das pessoas envolvidas em trabalhos como estes. Por isso, é tão bom.
Há muita junk food por aí, nos últimos lançamentos interneteiros. Dessas, não comento em específico. Não vale a pena falar de Big Mac se eu tenho em mãos a comida de fogão de lenha da vovó. E não ouse dizer que tem horas em que o bife compactado do Ronald é uma boa pedida, porque daí você não precisa voltar nesse blog mais. Prefiro peneirar os bons trabalhos de pessoas que gastam tempo e neurônios pra produzir, a engolir banalizações sem sentido, que não acrescentam vírgula.
Tomara mesmo que este final de semana seja mais promissor. Amargar novamente o desconforto do calor no meu “apertamento”, num sábado, seria muita crueldade. Há várias opções, estou estudando qual seria a mais interessante pra um rolê. Já estou com saudades de assistir uma boa apresentação, de preferência de bandas que gosto.

26 de janeiro de 2010

Fraldinha, Tape e a decepção em puro malte.


Eu devia a mim mesmo e a minha esposa um jantar bem feito, há alguns dias. Janeiro é mês de modorra. De preguiça exagerada. Inventei pouco na cozinha nestas férias. Não extrapolei em nada. Deixei-me levar pelas sorumbáticas férias caseiras, dentro de um apartamento de 58 m².
Hoje voltei ao trabalho, e com isso, voltou o sangue que cora minha cara lerda. Sacudi o bolor e fui ver o que havia na minha dispensa. Nada demais, que me inspirasse. Meu repente não foi impedido graças a uma ligação que fiz ao meu açougueiro: “Alemão, chegou hoje uma fraldinha zera aqui, mermão!” Era o incentivo primordial. E sim, eu sou amigo do açougueiro do mercado ao lado de casa, a ponto de usar possessivo ao me referir a ele. Venho investindo muito no “local”, e desacreditando cada vez mais nas grandes marcas e bandeiras comercias. Mas disso falamos depois.
Eu só cozinho com música rolando. É um hábito. E escolho a trilha de acordo com o que vou fazer. Não estudo uma relação direta entre prato e som. Vai do momento. Estou tentando me desvencilhar de jazz, pois passei um janeiro viciante garimpando na internet coisas desse gênero. Escolhi um fruto da terra pra começar esse processo de “reintoxicação” dos meus tímpanos. O excelente blog da Two Beers disponibilizou hoje em mp3 um lançamento que me surpreendeu muito: o EP da banda grunge Tape. Uma das raras exceções que marcavam meu player nos meus “jazz days”. Estava louco pra ouvir o EP todo. Vai ele pra vitrola, enquanto eu me aperto na cozinha.
Duas Therezópolis Gold pro freezer, juntando-se às Brahmas Extras que já o habitavam. A idéia era deixá-las matematicamente geladas até o final da execução do prato. A fraldinha é uma carne que exige cuidados de quem a prepara. Suas fibras são mais abertas, e absorvem mais tempero. Uso uma pasta de alho e sal caseira, cuja mistura e proporção conheço bem. Muito alho, menos sal. Além dela, cebola picada, suco de limão, que deixa a carne com cheirinho de final de ano, pimenta verde de cheiro picada e um toque de shoyu para equilibrar o azedume. Tudo muito bem esfregado à carne, que descansa no seu próprio suco e temperos por meia hora apenas. Lembre-se: não é um banquete, é um jantar de terça-feira. Cuidado ao dosar o sal.
O que vinha do meu toca discos me animava: o Tape manda um grunge clássico, ora com pitadas de metal, ora com visitas ao punk rock. Mas na essência, é Seatle na veia. Deu vontade de voltar uns 16, 17 anos atrás, com minha camisa de flanela xadrez. A banda trás referências dos grandes nomes do gênero, e consegue soar original na maior parte do trabalho. Mas é impossível não lembrar de Nirvana ao ouvir “Ácido”, principalmente quanto ao riff de abertura do som. Abri a primeira Brahma Extra animado, batendo os dedos em tudo quanto é lugar da casa, acompanhando a boa cozinha da banda. O vocal me causou certo desconforto de início, principalmente no prolongamento de algumas palavras de fim de verso. Próprio do estilo. Soou forçado demais pros meus ouvidos. O segundo som que ouvi, “C’est la vie”, foi uma surpresa agradável: leve, despretensioso. Algo um tanto incomum nos últimos lançamentos goianos – instrumental, sem distorções, poucos efeitos, simples, cru, e bonito. No terceiro som, “Estações Vazias”, comecei a me recordar dos tempinhos ingênuos de paulistaninho recém-chegado em terras goianas, metido a grunge, imitação barata de Kurt Cobain em colégio estadual periférico. Início da década de 90, ontem praticamente. E a música foi se desenvolvendo, e meu ânimo foi se esvaindo. Uma sombra de melancolia se apossou de mim a partir de “Poemas Perversos (para noites sujas)”. Pela letra e pela melodia. O peso fica mais evidente, mas o ritmo cai. Na quarta música, o trabalho mergulha de vez nessa onda deprê. Letras que nos levam a relembrar os velhos conflitos adolescentes. Eu tive vários, como todo mundo. Quase joguei a carne fora. Quase pulei da janela. E acreditem, eu percebi o que se passava. Me vi ali, solto no sofá, sorvendo álcool e lembrando de coisa velha.
Era hora de começar a magia na cozinha: ao mesmo tempo, “Psicanálise” inicia a retomada do Tape, pra temas musicais mais animados e menos cansativos. Nada de amarelar pra terça-feira, oras... O guitarrista destes meninos é bom. Ele entende exatamente a proposta. Soube dosar o preciosismo dos solos na medida certa. Seus riffs aqui dialogam numa boa com metal. Nada muito masturbatório.
Reanimado pelo som, reguei com bom azeite uma forma de chapa fina. Ela é própria para assados rápidos, como essa fraldinha. Disponha sempre a manta de carne de modo a dar uniformidade ao acesso à fonte de calor. Assim, você evita o cozimento desigual. Fogo médio, 220ºC, forma na grade de cima. E mais cerveja, pois amanhã só entro no trabalho às 10hs.
“Vandalismo” tem jeitão de hit. Levanta-poeira. Riff simples e muito competente logo de cara. Letra legal. Ganhou, pelo menos nesta primeira audição, como minha preferida deste EP. “Verdades e mentiras” aparece com um recurso “chiclete” interessante: tem um “iá, iá, iá” no final de alguns versos que chega mesmo a irritar, mas que cola na cabeça de um modo arrebatador. Mesmo que você não queira. E isso é inteligente, penso eu.
Quando minha fraldinha ficou no ponto que eu gosto, abri o forno e presenteei a vizinhança com o perfume de um prato barato, caseiro e muito bom. Ingredientes escolhidos a dedo, parcimônia e empolgação são minhas dicas.
A Therezópolis Gold poderia ser mais pelo preço estratosférico que me cobraram por ela. É melhor que qualquer outra marca de grande circulação. É de puro malte. Mas ainda não é referência. Pelo menos pro meu paladar. A carne foi acompanhada por uma cerveja mediana, e só. E por jazz. Sim, a degustação do EP “Verbalize” da banda Tape dura apenas 25 minutos. Tempo este que esteve entre os preparativos do prato. Suficientes para deixar em meus tímpanos uma excelente impressão. Há diversos pormenores no trabalho que sinceramente não quero comentar. Em suma, estão de parabéns. Na modesta opinião deste ex-grungeiro MTV, o caminho é esse. Investiram em qualidade na gravação, projeto gráfico, trabalharam um conceito para a banda, enfim, se levaram a sério. Primeiro passo já foi dado. Quero ter esse EP em mãos.

Conheça o trabalho deles, que inspirou minha fraldinha com pimenta verde:
www.myspace.com/taperockbr
http://taperockbr.blogspot.com/

25 de janeiro de 2010

E dando início aos novos trabalhos...

Contribuo para o resgate da memória do rock goiano, disponibilizando aqui a demo do Kundaline, banda que existiu entre 99 e 2008. Hardcore tipo old school politizado.

Ela foi gravada no República em novembro de 2006, sendo um dos primeiros trabalhos do estúdio para gravação.







Baixe a vontade!

O Rango Rock voltou.

É com imensa satisfação pessoal que comunico aos desavisados: o Rango Rock voltou!

E aí você diz a si mesmo: “Grandes coisas... eu nem lia mesmo! Caí no blog porque cliquei num link errado por aí”. Pois é, não se apresse em sair. Nova apresentação gráfica, novo gás pra 2010, novas seções sendo pensadas. Vem coisa fina por aí. Ou não, depende muito do referencial.

Os textos serão publicados aleatoriamente na semana, não obedecendo mais a periodicidade das segundas feiras.

A temática ainda será a mesma: interseções entre o universo rock e culinária/gastronomia. São das coisas que mais encantam o autor deste. A parada toda ainda vai girar dentro do esquema de “diversão antes de mais nada”. Não sou jornalista, crítico ou nada parecido. Continuem fingindo que não viram os erros de língua escrita, e para os amigos, continuem lendo isso aqui, porque se vocês não o fizerem, já viu né...

Vou me esforçar pra voltar a ouvir coisas mais extremas, ou mesmo o bom e surrado rock. Todos temos fases, certo? To numas de ouvir só e tão somente jazz. Dos clássicos líderes das big bands aos instrumentistas mais introspectivos, do swing ao bebop. Frescura? Pedantismo? Elitismo? Ismos diversos mais? Nada... é só boa música, meu chapa. Só isso. Cada maluco com sua nóia. Tô pesquisando pra caraleos, e descobri já que o material escrito disponível na internet, sobre a história e as principais características do jazz é imensamente limitado. Como para mim não basta, aceito indicações de livros sobre jazz. Por favor.

Através deste canal, pretendo manter parcerias com quem está preocupado em debater, com bom nível, o rock em Goiânia. Aí do lado, a lista de endereços é de responsa. Tem idéia massa pra todos os posicionamentos. Basta ler. Tem parceria com gente que “disponibiliza acesso democrático” à cultura alternativa, under. Tem parceria com o atual fenômeno futebolístico, que anda dando muita alegria para aqueles de bom gosto quando o assunto é o esporte tupiniquin número 1.

E ESSA NOVA APRESENTAÇÃO? Digna de um bom recomeço pra esse projeto. Espero que gostem, leitores. Ano passado recolhi informações entre vocês, e muitos (mas muitos mesmo, um montão, multidão, tipo uns 5, he, he...) reclamaram que a antiga apresentação prejudicava a leitura. Tentando solucionar esse problema, um novo “lay-out” foi desenvolvido. O autor dessa maravilha é Maurílio Henrique, o multi-bandas. Segundo fontes seguras, ele também atende por Mumu. Não quero imaginar em que condições isso ocorre, viu... Sei que o moleque, além de ser gente finíssima e debulhar a guitarra (coisa que sinto aquela invejinha boa, he, he...), manda também nessa parada de auxiliar bestas cibernéticas como eu.

A “equipe Rango Rock” ainda é formada por dois elementos. Nos Rolês, o lado feminino do time estará sempre presente, com seu olho clínico que detecta coisas que me passam em branco. Nessas incursões a campo, a velha e tosca Kodak de 5 megapixels continua sendo a ferramenta de documentação visual. Fotos noturnas continuarão sendo uma lástima, pelo menos enquanto os recursos deste blog não ganharem sérios incrementos. A conexão à internet ainda é NET, ou seja, ainda é muito ruim. Mas “vamo que vamo, que o som não pode parar”.

E aproveitando esse momento pessoal, de café, folga e jazz, seguindo a inspiração dada por Tommy Dorsey, vai aqui uma dica:
http://yestojazz.blogspot.com/. É um dos blogs que venho garimpando.

Cara, te garanto que vem coisa boa a partir de agora. Se a preguiça não minar meus esforços.


André Lopes "Alemão".