6 de setembro de 2010

"A novidade é o máximo", já disseram...

Machadian Metal. Estava eu pensando: por que não? Estou imbuído de uma causa: conhecer o maior escritor brasileiro de todos os tempos com mais profundidade. O título de “maior” fica por conta de quem entende, então eu uso também. Comprei uma obra de contos, publicada originalmente em 1896, “Várias Histórias”. Fará conjunto com outras que tenho e não leio tanto, os romances. Consta na introdução do livro que foram contos publicados no jornal Gazeta de Notícias – conheço o periódico por ser assíduo leitor da Revista de História, da Biblioteca Nacional. Se todas as pessoas que admiro por serem inteligentes me dizem que Machado de Assis é legal, por que não tentar ver o que há de bom na obra do cara? Não sou muito chegado do realismo brasileiro, comecei mal a leitura do Machado, através do romance Quincas Borba. E então, diante do desafio auto-imposto, me peguei ruminando: que tal lançar o Machadian Metal? Puta enredo massa, dramático o suficiente, seria Bentinho’s doubt. Já imaginou? Tá, eu sei que não, é necessário ser muito frito para tanto. Mas tente: elementos de modinha portuguesa, bem a cara do Rio em fins do século XIX, olhe lá até mesmo um chorinho entre passagens de scream, breakdown e peso. Riffs em ré menor, corpse paint. The lady who give the cards já seria algo metalcore, enfatizando a desconfiança. Ou quem sabe Vilela’s revange? Não me decidi. Mas tenha certeza, ainda nesta semana colocarei um tópico na comunidade Goiânia Rock City, para montar minha banda de Machadian Metal.

Não se pode mais ser igual ao que está in. Há algum tempo, décadas diria eu, o lance é tentar ser a eterna novidade, preencher vácuos deixados nos espaços onde só cabem os cools. Então, a ordem é inventar. Até onde isso pode chegar? Não tenho a menor idéia. Talvez até teria alguma, se voltasse a ler mais sobre cultura de massa. Tô meio chateado com meu bróder Adorno. Soou meio elitista o que ele me disse em uns textos por aí, que só agora tive a oportunidade de ler. Ele dá a deixa: bom, só os clássicos da humanidade. Porra, então se eu montar uma banda de Machadian Metal, será “só o creme” da cultura, hein?

Inventar na cozinha ouvindo música é fácil, não tenho que submeter-me a julgamentos, se eu não quiser. Foi em uma sessão “Frankenstein” de cozinha que me ocorreu inventar novos gêneros de música.

Não como salmão todo dia. Logo, quando tenho um bom exemplar em mãos, costumo tomar cuidado no que faço. Tive coragem de inventar com uma boa peça semana passada. Marinei duas lindas e firmes postas, uns 300 gramas cada, coloridas artificialmente, em vinho verde, limão, um tanto de azeite, cebola, noz moscada, alho picado fresco, pimenta verde e dedo-de-moça e tempero caseiro com sal. (sim, se você quiser comer salmão cor de salmão original, viaje até o Alasca).

As pessoas do rock estão inventando muito ultimamente. Que tal o math rock? Pois me ocorreu criar o history rock, em defesa da minha causa. Letras somente com tese, antítese e síntese, citando as fontes imateriais e debatendo o objeto de análise. Assim, a gente mescla todas as escolas de history rock, sem preconceito. Vai ter banda de history rock abordando a pequena aldeia de artesãs cegas e manetas do Mezzo Mediterrâneo em fins do século X, e outras, compostas por barbudos ostentando Ernesto na camiseta, explicando como a burguesia revolucionou o mundo e oprimiu o operário. Lindo. E não só temáticas novas: que tal se as bandas só usassem cravos, violoncelos setecentistas, harpas minóicas e afins, tudo amplificado e com pedaleiras? Composições só se forem nas escalas pré-gregorianas, nada de dó, ré, mi, fá, sol, lá e si. Rensga.


Eu viajo mesmo quando estou cozinhando. É minha terapia, além da música. Selei o salmão numa frigideira com borda alta, em azeite bom. Rápido, nem cinco minutos. Já te disse, leitor, que gosto de suscitar a inveja nos vizinhos. Pois agora, ao levar o salmão pro fogo, subiu um perfume único do meu fogão. A carne é delicada, ao virar é necessário cuidado para não termos farofa de salmão, ao invés de lindas postas de um sedutor rosáceo. Recolha o bicho e peça para ele esperar um pouco de fora da festa.

Já imaginei por mais de uma vez o Brazilian Folk Metal, assim mesmo em inglês, para a contradição ficar patente. Dizem as línguas especializadas que o pirarucu é o salmão do Brasil, e já o vi figurar em algumas lendas do nosso folclore. Tascaria sem dó um disco Pirarucu’s Tales. Seria interessante narrar a epopéia da Stupid Little Horse without a head. E o que seria do disco sem Saci’s tricks ?!? No encarte, um prólogo sobre Monteiro Lobato. Coisa chique. Uma versão atualizada d’O Guarani, com duas baterias e cinco guitarristas, cada um com um solo de 7 minutos, lá no Teatro Municipal, em Sampa. Iracemas mil fazendo um balé moderno, post-punk-core.

Aquela frigideira com o azeite restante da passagem do salmão receberá tomates sem pele nem sementes bem maduros (dica: prefira os mais doces), cogumelos (usei os de conserva, fungi pleurotos, tipo shiitake, mas penso que cogumelos frescos dão mais sabor), e o resto da marinada. Acrescentei mais pimenta verde e um cadinho de noz. Refogar essa garotada até amolecer o tomate, o que não é demorado. E como era dia de fazer diferente, lasquei uma xícara servida de vinho verde no refogado. Ela caiu dando sopapos em todos os outros desavisados de dentro da panela. O lance é você dar tempo para o álcool evaporar, e não deixar secar. Tem que ficar suculento. Diminua a bravura da chama, deixe o molho apurar, e quando convier o ponto, artesanalmente coloque nosso rapazinho cor-de-rosa de volta, para ele experimentar do molho. Deixe eles ali, peixe e molho, se conhecendo, interagindo.

Trilha sonora pra esportes é algo já bem sacado. O que seria do skate sem som, não é verdade? Daí me ocorreu dar à luz o squash-punk. Trilha sonora irada pras manobras mais radicais deste esporte hiper hype. Como ninguém nunca pensou nisso? Grinders que nada, o lance é o squash-punk. Ou quem sabe o Bocha-metal. Sempre em italiano, podendo variar para o italiano novelo-Global, aquele com um vocábulo do Lácio por sentença, e o resto num português com sotaque de macarronada que dá uma vergonha alheia grande. Rolaria como pano de fundo nos emocionantes pegas ali no Bexiga, no Brás ou na Barra Funda, em São Paulo. Ou de repente, aqui em Nova Veneza.

Minha esposa ria, isso é bom. As mulheres gostam de rir com os homens, e não deles. Isso costuma abrir portas. Ela preparou algumas batatas cozidas em sal apenas, que ficaram bem firmes, refogadas em cebola, alho, pimenta do reino, tudo no azeite e um leve toque de orégano. Eu gostei demais.

Nosso salmão então tinha uma boa companhia. As batatas equilibraram o peixe, que ficou um pouco ácido, além da conta. Meus tomates não eram assim, uma Brastemp. A combinação dos ingredientes produziu algo legal, que para nós foi bom. Penso que para um chef profissional, o que fizemos se assemelha muito com Machadian Metal, Brazilian Folk Metal ou History rock.

Os vinhos verdes portugueses são excelentes para um dia de cardápio leve, como foi esse. São levemente gaseificados – o que comprei passou pelo processo artificialmente. Brancos e jovens, tem um perfume delicioso, frutado. O que tomamos vem de cortes de alvarinho e trajadura, sub-região de Monção e Melgaço. E o consegui por um excelente preço, algo menos do que 40 reais.

Inventar é sempre legal. Vamos ver até onde a criatividade leva o rock, nesta nova década que se inicia em 2011. Alguns caminhos já foram abertos, e tenho receio da maioria deles. Pra você ver, em pleno século XXI, numa noite de domingo em final de agosto, eu ainda dou ouvidos à obra de Ozzy Osbourne. Inventamos muito na cozinha, criamos uma receita com salmão, compramos um vinho português meio no escuro e acertamos, mas na música, ainda somos conservadores, caretas. Minha esposa e eu temos no velho Ozzy paixão comum. O novo disco Scream, só trás o mais do mesmo, e mesmo assim, é excelente.

Ah, sim! Qualquer interesse em montar projetos musicais com os novos estilos apresentados aqui, me contatem. Entre o Ímpeto, Sangue Seco e o Tirei Zero, deve haver uma brecha por aí.


16 de agosto de 2010

NET Goiânia, get off the air!


Se você tem boa memória e acompanha o blog (gargalhadas típicas do Chaves ao fundo na parte "acompanha o blog"), sabe que uso os serviços da empresa NET. Telefone, internet e TV.

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Cansei de ser esculachado. A impressão que eu tenho é de estar recebendo um enorme favor, ao invés de me sentir como um consumidor de um serviço caro à beça. Cansei de tirar e pôr a tomada do modem no interruptor em TODOS os problemas que relato às atendentes, como se isso resolvesse algo. Cansei de fazer download de arquivos em velocidades pré-históricas, pagando preços do futuro. Cansei de ver a velocidade da minha banda larga ser entregue pela METADE e ser cobrada de forma integral. Cansei. Como todo brasileiro médio, careta e pagador de seus impostos, demorei-me para cansar.

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Acredite em mim: dois anos de sofrimento. E se você hoje está crente, de bem com a humanidade, aqui vai mais um dado: NUNCA, eu disse NUNCA, atrasei um só dia nas mensalidades.

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Eu relatei "gatos" na minha instalação, que não foram resolvidos. Fiquei sem internet nas férias por 10 dias, quase fui parar num psiquiatra por isso. Tentando sanar o problema, três técnicos diferentes vieram e me deram três explicações completamente desconexas para o problema, acusando-se mutuamente de incompetência de quem os antecedeu. Risível.

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Minha fatura de telefone celular deverá vir com mais de dois dígitos neste mês. Nem mesmo meu ótimo plano de descontos e minutos vai conseguir me livrar da conta de 10 dias sem telefone fixo. Se vivêssemos num mundo justo, eu mandaria esta "bronca" para a NET pagar, e tudo seria resolvido (muitas risadas agora, e palmas, como em fim de série antiga americana).

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O mínimo que posso fazer é expor o caso. Então, minha dezena de audiência, se você pensa em adquirir ou migrar para uma empresa de telefonia e TV à cabo, não lhe recomendaria a NET. Amanhã, toda a parafernália deles estará fora da minha casa. Tomara.

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Enquanto estudo propostas de possíveis substitutos, o próximo texto do blog é uma icógnita, quanto à data que vai pra rede.

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De uma coisa eu sei: se eu ficar sem a série House, aí eu infarto.

13 de agosto de 2010

Entre copos e amizade

O inverno goianiense pede cerveja gelada. São complementares, aqui neste sertão, a estação e a bebida. Temperaturas sempre entre 25 e 30ºC. E um ar seco e carregado que faz sangrar meu nariz, em alguns dias.

No último sábado 7 o trabalho ocupou meu tempo apenas até as 11 da manhã. Depois disso, dia de folga. Precisava fazer algumas compras pra casa e me deparei, em um hipermercado, com a honesta Devassa Ruiva por convidativos 3 reais a garrafa. Fazer-se de rogado não é do meu feitio, adotei três mocinhas sardentinhas destas e as levei para o conforto de meu freezer doméstico. O clima desértico, a hora do almoço se avizinhando, tudo conspirava.

Mas parecia que meu capetinha interno não estava satisfeito. Rapidamente ele me convenceu da parvoíce do anjinho companheiro, e me convidou para mais. Era preciso dar valor ao último sabbath livre antes do início de minha rotina de escravo da indústria do vestibular. Era um brado de despedida. Afinal, sete dias adiante, eu estaria internado em uma sala de aula, repetindo coisas que já ministro no piloto automático. Pensando em bebedores disponíveis para dividir a mesa, e que tivessem a virtude de compartilhar minha amizade, os convites foram feitos aos meus parceiros de Sangue Seco, Guga Valente e Eduardo Mesquita, que tiveram o bom senso de aceitar. Afinal, não é todo dia que algum mortal tem a chance de aparecer por aqui, no blog. Modo “arrogância” para minha última sentença, por favor.

A bela largada do dia, bebendo cerveja de alta fermentação e personalidade forte, me inspirou a beber com qualidade, e não com quantidade. Sugeri visitarmos o bar Devassa, no templo de Mamon incrustado no Vaca Brava. Guga me alertou de um novo bar entre a T-7 e a T-9, na altura do Marcos. Rumamos para esta opção – Território da Picanha. Bar sertanejo, frustração: não sabíamos disso, embora pudéssemos deduzir, já que vivemos no “meio-oeste” do imaginário brasileiro. Mas era dia de alegria, e precisava muito mais do que um simples Victor e Léo pra estragar meu bom humor.

Conversar com amigos e beber cerveja. Às vezes me ocorre que muito da Criação (assim, com maiúscula) foi feita desta maneira. O Homem lá de cima (?) resenhando com São Pedro e pimba!, dá aquele insight no cara:
“–Tô vendo aqui, Pedrão! Pensa só, meu... Bóra descostelar o Adão, mandar uma moçoila pra ele e ver no que é que dá?”
São Pedro sorve um gole e dispara:
“–Aposto que dá merda, mermão... ops! Meu pai...”

É uma atividade digna de deuses mesmo. Largar de contar as voltas do ponteiro do relógio, esticar as pernas, coçar o saco à maneira dos ogros. E elencar assuntos dignos para o momento, é claro: futebol, mulheres e rock. É que somos caretas, sacomé né? Dá até pra esquecer da missão de “se unir aos proletários do mundo”.

Já tive muitos amigos de copo. Interessante mesmo é quando há a possibilidade de aprofundar a amizade nascente através de um caneco. Infantis, simples e sábias palavras de Shreck: somos como cebolas, temos camadas. E álcool é um excelente meio de descascá-las. A cerveja entra pela boca e abre a “caixa de ferramentas” do sujeito. As verdades pessoais saem pelos poros. Coisa bonita de se ver. No texto passado, eu falava sobre elementos charmosos do machismo. As juras de amor e consideração entre marmanjos bêbados à mesa do bar são, sem dúvida, partes do gênero. Tivemos isso neste sábado.

Iniciamos os trabalhos com uma instigante Baden Baden Red Ale. Cerveja nacional, de Campos do Jordão, tem como trunfo a excelente qualidade da água usada no fabrico da bebida. Como a produção é de pequena escala, há mais esmero na qualidade dos ingredientes, como lúpulos importados, por exemplo. Encorpada, forte, como esperado. A espuma é cremosa e saborosa, vale a pena deixar um dedo de colarinho. Minhas referências ao degustar uma cerveja mais elaborada não são as melhores possíveis. Estive e estou dentro de uma categoria de trabalhadores que não costumam ter muitas chance$ de apreciar algo muito além do que os hipermercados podem oferecer. Em suma, pra mim Baden Baden é um néctar. Pra quem já é conhecido até mesmo pelo nome pelo staff do Bolshoi, de repente, não. E não confunda isso que eu disse com rancor classista, por favor. É apenas uma fato, uma constatação.

A cerveja veio gelada no ponto ideal. Gostei muito disso: nada de sorvete, e tampouco de chá. Servida em baldes de gelo, o que me deixou ainda mais feliz. O bar transitava o serviço para o turno da noite, e na modorra do meio de tarde, um grupo de amigos bêbados esgoelava parte do repertório do DVD da dupla Jorge e Matheus, um tanto distantes de nossa mesa. Senti um leve desleixo no serviço e na organização do ambiente. Insisto que lavar copos de boteco deve ser um daqueles segredos de tribos no norte extremo das montanhas da Ásia Central, porque aqui em Goiânia ainda não vi um só lugar que me ofereça copos decentes pra começar a beber. Então, não vai ser por isso que vou maldizer a “galera do chapéu”. Outro sonho que tenho é ver as casas pequizeiras oferecerem copos mais adequados para tomar cerveja. Como produzir uma boa espuma e ainda preservar as propriedades do líquido em um copo sem curvatura própria para tal? Passo adiante esta pergunta.

No telão da área externa, um excelente programa de humor: jogo do Vila Nova, PFC. Tá certo, as coisas pra nós da Campininha não andam nada fáceis, mas há de se pesar as situações. Show de horrores, que não foi capaz de fazer meu corpo gastar nem a energia de virar a cadeira para assistir. Preferi os informes que chegavam pelos olhos angustiados de dois vilanovenses convictos, aliás, em pleno ato de contrição. Divertido.

A casa oferece uma excelente carta de cervejas. Só vi algo semelhante em raríssimos locais da capital. Entre nacionais e algumas importadas, há muitas opções para se beber bem. O cardápio não foge aos clássicos. Porções e pratos quentes de sempre, e me lembro de ter visto alguns risotos. Uma infinidade de clichês que agradam. O diferencial é mesmo a oferta de cerveja boa. Nem mesmo o ambiente, típico boteco goianiense, oferece um adendo. As instalações não são ruins, longe disso. Só não são “algo a mais”. Eu não gosto de dividir com outra pessoa o momento em que o efeito diurético da cerveja se manifesta. Logo, banheiros diminutos me deixam incomodado. Ficar espremido num momento tão narcisista como este é coisa degradante, e por isso sugiro ao bar que repense seu espaço de descarga de mercadoria consumida.

Tenho receio de ser injusto ao avaliar a cozinha de um lugar por apenas um prato ou dia. Há inúmeras variantes que podem atuar e causar desastres irreparáveis, afundando casas que se propuseram a atender um público minimamente exigente. Casos não faltam no folclore. Então, resolvemos ser razoáveis. Se estamos no Território da Picanha, por que não pedir um naco deste de boi? Feito. A Eisenbahn Pilsen é uma cerveja marcante, apesar de jovem no mercado. Prima por escolher muito bem os ingredientes. Aqui vai um comparativo para quem não é versado a pagar um pouquinho a mais por uma boa cerveja: perto da Devassa, a Eisenbahn parece cerveja importada. Excelente sabor: leve, mas imponente. É clara no copo, de espuma densa. E trocou figurinhas com o “X-Picanha” gigante que pedimos numa boa.

Eu explico o “X-Picanha”: mistureba atrapalhada de ingredientes, em uma chapa comum, dessas de pit-dogs. Mandioca em excesso, tomate com pele, semente e tudo mais, cebola, pimentão, e lá de vez em quando um teco de carne. Seria o caso de meu paladar ter corrido dali naquele justo momento, e eu ter me enganado quanto ao corte de carne que estava comendo? Improvável. Conheço o sabor de picanha, e sei quando como uma. Não foi o caso nesta feita. Tudo coberto por uma generosa camada de mussarela (a correção ortográfica do meu Word diz que é assim que se escreve). Daquelas comuns mesmo. Muito gostoso, mas de paladar grosseiro. Bom para acompanhar a cerveja, porém impróprio para o tamanho da responsabilidade. Uma boa cerveja exige um bom prato. Acreditei na possibilidade daquela “picanha” na chapa ser melhor executada. Comemos algo dispensável com uma boa cerveja. Reitero que estava bom, mas a Eisenbahn merecia mais. Senti que poderia ter pedido uma Antarctica mesmo.

Tudo é uma questão de referência, volto a dizer. A porção, de preço justo e tamanho certo, não deu conta da cerveja, mas isso foi minha impressão gustativa. Não vi meus companheiros abrindo sorrisos frente ao prato, por isso penso que não falo isso sozinho. Talvez mais capricho na execução da comida sirva para melhorá-la, um pouco menos de óleo, menos mandioca, e tomates limpos. Só aí, teríamos um enorme ganho.

Fomos informados que meu cartão de débito não seria aceito, por problemas técnicos na máquina, apenas na hora de acertar a conta e o serviço. Falha solene da casa. Não pagamos parte da conta naquele momento em nome dos direitos adquiridos no Código de Defesa do Consumidor. Bêbados sim, indiferentes à lei, nunca! E nem caloteiros: Guga pagou o restante no dia seguinte, depois que lhe repassei o dinheiro.

Beber com amigos deveria ser recomendado por médicos. Deveria ser prática de terapia. “Olha Astolfo, tô aqui te prescrevendo um porre semanal com o pessoal da repartição, certo? É certeza que assim, esse seu edema regride rápido”, diria o doutor. Com amigos de rock então, é cabeça boa garantida por toda a semana. Você que não é adepto, experimente. E se puder ser com cerveja boa, não abra mão. Vai por mim.

10 de agosto de 2010

Reminiscências

Itaquera, zona leste da capital paulista. Manhãs chuvosas de final de semana, de alguns dias perdidos no ano de 1985. Eu não me lembro do mês, e como chove metade do ano naquela cidade, essa referência climática acaba não ajudando.

Cena típica de convivência entre o proletário e sua dependência: sem nada para fazer, ambos iam ouvir música, a convite do pai. O disco, certa feita, foi um LP mix promocional, salvo engano da Som Livre, que existe até hoje na pequena coleção do velho metalúrgico. Trazia músicas de Tim Maia na fase mais FM, Belchior e Raul Seixas, quatro faixas de cada. O pequeno neto de imigrantes alemães, então contando com seus seis verões trancados em casa de bairro violento, gostava muito de uma música em especial: Trem das sete, interpretada por Raul. O então jovem operário fazia o gosto do herdeiro, indo direto para a faixa requerida, quando se atinham à audição daquela bolacha. Eu me lembro desta ser uma das atividades mais prazerosas que tive na minha infância: ouvir música no colo do meu pai.

Caía em velhos embustes para fazer rir meus tios que nos visitavam: certa vez, acreditei piamente que Tim Maia estava dentro das caixas de som de nosso antigo National, e por isso nós o ouvíamos. Plausível a explicação de como podíamos ouvir sua voz, para o moleque da casa. Depois de amplas gargalhadas na sala, entendi que o motivo de chiste ali era eu. Bons tempos, regados à Laranjinha do Bozo, com direito a canudinho especial, e ao sabor de Lolo, “o da vaquinha”.

E eu não imaginava que meu gosto musical estava sendo moldado ali. É certo que há tantas variantes na vida de um indivíduo, que fica impossível determinar que hoje ouço rock graças ao meu velho. Mas não poderia negar a influência, ao menos. Abandonei a mamadeira em meio a rodas de samba de raiz, outra paixão de meu pai. Estava sempre envolto em música, tendo um avô que além de ateu descendente de judeu fugitivo, era um exímio sanfoneiro. Conheço muitas músicas folclóricas teutônicas. Minha mãe é de origem mineira interiorana, então moda de viola nunca faltou naqueles três cômodos de bloco de concreto. E de tudo isso, escolhi o rock.

Meu pai tinha uma K-7 gravada de rádios, com inúmeros títulos que faziam as FM’s daqueles meados dos anos 80 ferverem. Ultraje a Rigor, Titãs, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso, Heróis da Resistência e afins. Eu gostava muito de “Ciúme”. Havia uma marca de biscoitos que tinham o formato de bonequinhos, naquela época. Brincávamos, meu velho e eu, de teatrinho sobre a menina da letra da música do Ultraje.

A coisa ficou séria quando nos mudamos para Goiânia: um belo dia, aos 11 anos, meu pai achou que era hora de encerrar o doutrinamento. Sentou comigo no quarto que servia aos três irmãos, onde repousava o velho National 3 em 1 estéreo e ritualizou a herança de alguns discos: compactos originais de edições nacionais dos Beatles, de 67 e 69 (que fiz o favor de enfiar onde sua imaginação quiser), um LP de clássicos do Bill Halley and his Comets, alguns discos do Raul Seixas e coletâneas de rádios paulistas, como Antena 1 e Jovem Pan. Ali começou a minha própria coleção. Dali para frente, eu escolheria o que ouvir.

É certo que o que veio depois assustou um pouco o coração de meu pai: um violão, mais tarde uma guitarra, um contrabaixo. Meu primeiro emprego veio depois que ouvi um sonoro não para a compra de uma Jennifer de braço esmaltado. Se não viesse por meio do suor daquele caldeireiro industrial, viria então pela petulância do jovem empacotador de supermercado, que desafiando a orientação paterna, começou a trabalhar aos 15 anos para sustentar o vício em discos, fitas e camisetas de rock.

Brigamos, nos ofendemos, quebramos vários paus, sempre mantendo a certeza da razão, tanto eu como ele – eu sempre certo, ele idem. Sou familiar? Sim, famílias só mudam de endereço. A fórmula é sempre a mesma. Desde Sócrates na Atenas antiga.

Eu aprendi em casa que homem cozinha sim, e bem. Que pode dominar uma vassoura com destreza, e desvendar os mistérios de uma máquina de lavar. Aprendi que ser machista em algumas situações é até charmoso, porque faz parte daquele antigo cavalheirismo cortês que anda tão em baixa. Feministas, me desculpem: meu pai é um lord neste quesito. E eu acho isso muito bonito. O arroz dele é muito melhor que o meu ou o da minha mãe. E se um metalúrgico rude e mal-encarado pode cozinhar, por que eu não? Muitos preconceitos estúpidos deixei de ter por isso.

O meu talento para dilapidar o patrimônio pessoal, gastando em prazeres que poderiam esperar, principalmente aqueles que envolvem meu paladar e minha gula, é sem dúvida uma marca registrada de meu pai. Lição aprendida com louvor, nos vários sufocos por que passamos em família.

Hoje, adulto, vacinado e produto direto do modus operandi de criação de filhos do “seu” Carlos. Espero com muita ansiedade um show do Ultraje à Rigor, antigo desejo de quem me apresentou o rock. Ainda devo essa ao homem.

Não quero pesar nada depreciativo hoje, em minha relação com meu pai. Reservei este momento para pensar somente na importância de sua intervenção em minha vida. Nossas desavenças de outros tempos, onde minha ingenuidade saltava à vista, e talvez por isso moldava-me tão intempestivo, guardei-as para outra hora. Afinal, este crédito existe.

Notícia de última hora: se você aprecia a Bohemia Escura, corra para o Pró-Brazilian mais próximo de sua casa. Na loja da Vila Nova, a long Neck sai hoje por R$ 1,99. Em tempo, não aprendi a beber com meu pai. Perto de mim, ele bebe como uma moça, hehehe...

30 de julho de 2010

Sobre velharia: Desordem Progressiva.

Eu ainda possuo um toca fitas K7. Tenho uma pequena coleção de fitas demo, amealhada em fins dos anos 90, nada demais, uns 30 títulos. Época em que era fácil acompanhar o que saía do forno em Goiânia, pois gravar e soltar um material era coisa que poucas bandas faziam. Lançar LP ou CD então, era quase um épico.

Sinto-me em um momento de transição, e tenho certeza que grande parte dos roqueiros desta cidade compartilha disso, caso sejam membros da fatia trintona/quarentona de nossa classe. Eu gravei materiais com o Ímpeto há uma década que foram literalmente descartados pela imensa falta de qualidade no resultado obtido. Não me refiro ao óbvio, a falta de qualidade técnica/musical dos integrantes, que é parte da nossa proposta. Me refiro à péssima qualidade da aparelhagem de gravação. Gravar uma demonstração do trabalho exigia demais financeiramente. No máximo dois ou três locais em Goiânia faziam jus ao título de “estúdio”. Enfim, era então se contentar com as gravações de ensaio, que apenas davam uma idéia de como seria o trabalho das bandas. As gráficas, em sua esmagadora maioria, trabalhavam com máquinas antigas e caras, o que impossibilitava um bom resultado na arte das capas das fitas cassete. Programas de arte e design para computadores caseiros eram somente mitos vistos em filmes de ficção. Eu já comentei sobre isso por aqui.

E você me pergunta: tens saudades desta época, no sentido de ter sido mais suado o trabalho das bandas? Eu te digo: JAMAIS! Viva essa parafernália tecnológica, que permite fazer uma gravação relativamente decente dentro do próprio quarto! Esse avanço tecnológico é uma vitória.

Puxei uma das caixas de sapato em que guardo as fitinhas, respirei um pouco de poeira, metido numa nostalgia miserável de uma tarde de domingo. Escutei coisas que há mais de 10 anos eu não ouvia. Coisa boa e coisa que hoje eu ouço e penso: porque diabos eu comprei essa porcaria?

Já na noite daquele que seria mais um domingo caseiro, reencontrei a fita do Desordem Progressiva. “Você gosta disso”, me disseram os sentidos, embora eu já não me lembrasse dos sons. Pareceu coisa pensada: neste domingo de julho, tão cheio de nostalgia, tristezinha e suicídio a conta gotas, com cerveja barata em lata e fritura, muita fritura, reencontrar o Desordem Progressiva. Vento e sequidão, árvores desfolhadas... só me faltou óculos de aro grosso, um exemplar de um autor francês obscuro e pronto, eu seria um autêntico indie. Provocações infantis à parte, o trabalho deles é algo que merece ser relembrado. Minha esposa e eu precisávamos de uma janta de verdade, não agüentávamos mais batata frita. Resolvi mostrar a ela o som do Desordem e um peixe que eu ensaiava preparar há alguns dias.

Você conhece pirarara? É uma das carnes de peixe mais saborosas que já comi. Tive o prazer de conhecer e degustá-la bem fresca, no alto Araguaia, Araguatins (TO), ano passado. O peixe mede mais de metro e pesa como um homem adulto. Carne abundante. O que preparei aqui também estava fresco, e sempre que você for pensar em comer peixe, tenha isso como regra. As postas têm em média mais de 30 cm de diâmetro. Limpe a peça, reduza a quantidade de gordura, já que este é um peixe de abundante manteiga, mantenha o couro só se for de seu agrado, prepare cubos grandes, lave-os com limão e tempere com sal e o que mais seu paladar gostar. Carne de peixe absorve muito bem o tempero, então cuidado ao dosar. A vantagem da pirarara é ser uma carne firme. Trabalhá-la é fácil.

A minha fita do Desordem Progressiva é velha, tem 11 anos de idade. Então, qualidade de som, necas. Mesmo assim, enquanto me livro desse cheirinho de peixe e tempero entre meus dedos, escuto o trabalho. Enquadrei a danada na vitrola. E deixei os camaradas tocarem.

Mil referências ocorrem, que juntas acabam dando um quê autêntico, melancólico, assim como estava meu dia. Lembra brit rock, indie rock (como gostam de chamar hoje), pop, sei lá. Sou avesso a resumir trabalhos em uma simples escola de rock, embora o faça com certa freqüência. É sem querer, eu juro. Cantam em um bom português, o que eu considero um mérito, com letras de uma poesia adolescente, ingênua às vezes.

Foi curioso, esse trabalho me deu uma vontade grande de beber vinho, neste dia. Lembrei que esse tipo de som cria atmosferas interessantes, principalmente quando se está acompanhado. E o vinho é um excelente estimulante para estas ocasiões. Eu não ligo a mínima para convenções gastronômicas. Como e bebo aquilo que eu penso ser bom. Sou guiado completamente pelo meu paladar. Estou me lixando se para alguns, não “harmonizo” minhas refeições. Vinho tinto e peixe, aqui vamos nós. A vinícola portuguesa Messias tem rótulos para o dia-a-dia, e obedece aos padrões de qualidade europeus, como a “denominação de origem”, que te indica por exemplo o tipo de uva, solo e clima usados no fabrico do vinho. Eu tinha uma garrafa de Messias Bairrada, e ela nos serviu perfeitamente. Custou módicas dezenas de reais. Ultimamente, os vinhos portugueses são meus prediletos. Já havia lido sobre este vinho por aí, então eu sabia o que esperar. Cotidiano, mas gostoso. Nada para ficar fungando, rodopiando no copo, analisando no microscópio ou procurando uma leve nota de terra preta. Bom tanino.

A capa da demo tape, numa resolução digna de impressoras caseiras de 99, em cores, trás um cenário de outono, bem aos moldes de bandas deste universo: chão coberto de folhas secas, árvores esquálidas ao fundo. Não há um projeto gráfico, é bem “faça você mesmo”. Minha memória tem estado cada vez pior, mas tenho certeza de ter visto algo do Desordem Progressiva em CD-r. Eu não adquiri, somente a K-7.

As boas melodias são bem povoadas por duas guitarras cruas e sem muitos efeitos, que trabalham bem as oitavas, e um baixo que marca bem grave, sem virtuosismo algum, mas competente dentro da proposta estética da banda. A bateria é só um acompanhamento, reta, sem nenhuma “firula”, às vezes deveras simples, também atendendo ao que se exige dentro deste tipo de som. Os vocais, ora afinados, ora forçando a barra, não conseguem atingir os timbres necessários para a atmosfera criada. Seguram a onda e não comprometem. E não é que é massa demais o conjunto da obra? Soa garageiro, sincero. Cara, não sei se o leitor que conheceu o trabalho vai concordar comigo, mas a fita me lembra muito o Oasis antes de estourar, ali daquele EP “See the sun”. Soa como outras bandas inglesas do início dos 90. Isso é apenas uma impressão minha, e posso até estar ofendendo a banda sem saber. Sim, eu gosto de Oasis, e daí? Já conversamos sobre isso.

“Garoto Voador” inicia o trabalho levantando a questão da geração sem sonhos nascida a partir dos anos 80. E não se oferece uma verdade sobre esses garotos sem ideais. A letra lembra muito frases de fundo de caderno, que eram trocadas com a menina da qual estávamos afim no colégio. Depois de “9 de novembro”, uma alusão ao Muro de Berlim e todo o universo político que o tema envolve, temos “O Dia”: uma balada indie com jeito de banda inglesa lado B e letra sobre desilusão tanto no amor quanto nos outros humanos. Aqui, a voz de Fábio deixa a desejar. Mas eu acabo gostando dessa fronteira não muito nítida entre o técnico e o “mal-feito de propósito”. Não sei se era o caso, o objetivo da banda, mas assim eu vejo. E me agrada.

Fritar o peixe em bom azeite numa frigideira com bordas altas, até dourá-lo e firmar mais a carne, é tarefa fácil e cheirosa. Depois disso, separe as postas, e na mesma panela, frite umas tiras de bacon bem limpinhas (sem pele e magras), cebola, alho, junte tomate sem pele e miolo em cubos pequenos, uns pimentões coloridos (vermelho, amarelo e verde), e dê andamento.

Há um som nessa fitinha com uma pegada mais forte: “Lívido”. Temática já apresentada em outros sons – relacionamentos desencontrados – a música tem um riff que gruda na memória. Em nenhum momento do trabalho há solos elaborados demais, e muito, mas muito trabalho com escalas diferenciadas das duas guitarras. Não é inovador, mas é bem feito. Bem visível em “Por uma causa”, minha música favorita na fitinha.

Tomate e pimentão são sinônimos de água, caldo, líquido. Mas observe se às vezes não será necessário acrescentar mais um pouco disso. Se você está usando um fogão onde a chama é muito raivosa, é bom acompanhar de perto, pra não deixar o refogado secar, ou pior, queimar. Depois que o negócio estiver “firmeza”, com aquela cara bonita e sorridente, traga o peixe pra se divertir ali. Socialize a rapaziada, coloque-os para bater um papo. Diga a eles que o som que vem da sala é de qualidade. Traga os camaradas do cheiro verde bem picados e meio caldo de camarão amassado, para diluir mais rápido. Quem sabe algumas alcaparras? Ou azeitonas pretas, obviamente descaroçadas? Por observação de campo, te digo que ambos, bolinhas verdes e pretas na mesma panela, desandam. Prove o sal dessa galera toda, e faça os ajustes. Seus vizinhos estarão numa puta inveja do perfume que emana da sua casa agora. Isso não é legal? É diversão garantida.

A fita do Desordem Progressiva acaba com o som “Perdidos no Tempo”, que eu não pude sacar. Meu toca-fitas deu pau. Pra falar a verdade, ao virá-la no meu velho Philips, ouvi a rotação diminuindo. Mas por não manusear um toca-fitas há um bom tempo, acabei me esquecendo que isso era sinal de fita embolada. Nada que uma Bic e paciência não resolva, depois de comer, é lógico.

Eu juntei um arroz branquinho previamente cozido nessa panela aí, pra brincar um pouco de paella. Se você tiver o arroz próprio para o preparo desta iguaria, eu recomendo, viu? Com o nosso arroz tipo 1 de qualidade, não é a mesma coisa não. Fica muito gostoso, é verdade. Mas não saia por aí dizendo que já comeu paella. Inclusive, nem é essa a intenção das dicas aí de cima, beleza? Em tempo: o vinho tinto Messias Bairrada é uma porrada, mas o prato segura a onda pelo excesso “do bem” de tempero. Andaram de mãos dadas numa boa.

Tive uma “rápida amizade” com o Júnior, baixista da banda. Ensaiei no estúdio do Desordem por quase um ano, ali na rua 68, no Centrão. Pessoa tranqüila, que gostava de quebrar um galho, tinha a parcimônia de ouvir o Kundaline e ainda incentivar, ali pelos idos de 99 e 2000. Enquanto sorvo o vinho, o filme passa nítido na minha cabeça: foram legais aqueles tempos. Não se falava em profissionalismo com tanta freqüência, assim como hoje. A grande maioria destas bandas ditas indies tocava talvez pra satisfazer o ego, imitando seus ídolos do rock. Pelo que me consta, as críticas da época em relação ao Desordem Progressiva se baseavam no fato de eles se encontrarem no limiar de um som quase profissional e um som sem pretensões, mas bem feito. Eram acusados de não serem profissionais o bastante e deveras trampado para ser informal. Isso posto de lado, recomendo que você procure ouvir. Foi uma das boas bandas daquela safra do fim dos 90. Made in Cantoria, nos “Domingões da Brodagem”. Tocaram em alguns festivais maiores, e mais uma vez vou confiar nessa memória torta minha: estiveram em uma edição do Noise e/ou Bananada. Depois que a banda se desfez, perdi o contato completamente com os caras. E como eu não era parte desta galera do rock indie pequizeiro, não sei te falar o que houve ao certo. Eu vi algumas apresentações da banda, e gostei muito. Não os vejo pelos rocks da vida. Gostaria muito de os encontrar e pedir permissão para digitalizar a fita demo deles. Compartilhar o som do Desordem Progressiva com quem não conhece e gosta do estilo, é uma obrigação. Fique no aguardo, quem sabe um dia esta fita não aparece por aqui...

E vinho bom é outra história. O prazer proporcionado à alma é tão grande, que a ressaca não tem coragem de aparecer no outro dia.